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PRINCIPAL * EDUCAÇÃO SEXUAL

 

FotoEducação sexual com  Zenilce Bruno

Zenilce Vieira Bruno é Pedagoga e Orientadora Educacional, Psicóloga Clínica e Psicodramatista, Especialista em Adolescência, Psicoterapeuta de Adolescente, Casal e Família, Especialista em Sexologia, Terapeuta Sexual e Educadora Sexual, Formação em Neurolinguística, Membro da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana, Professora do Curso de Especialização em Adolescência da UFC, Professora do Curso de Especialização em Psicologia da Adolescência da UNIFOR, Consultora, Colaboradora e Colunista dos Meios de Comunicação sobre Adolescência e Sexualidade Humana.

zenilcebruno@uol.com.br

Entardecer a vida

Postado em 19-12-2011

O por do sol é bonito porque é efêmero. Se fosse permanente nos cansaria. Nada permanece belo definitivamente. Tudo termina, até mesmo um beijo ardente. Imaginemos por um instante que o sol jamais vai se por ou que nossa vida jamais terminará. Como nos comportaríamos? Como nos sentiríamos em relação a este dia “eterno” e à vida sem fim? O que neles poderíamos apreciar em sua definitiva repetição? É a alternância que nos possibilita tanto o amanhecer como o anoitecer. Assim também é a vida. Ela é bela em sua diversidade e temporalidade. É nessa provisoriedade que nos esforçamos para lhe dar sentido e prazer.

Tenho pensado muito nisso. Particularmente nos últimos tempos o dia tem sido curto para o tanto de vida que quero viver e para o tanto de amor que quero dar. Parece que quando ficamos mais velhos começamos a escrever as tais “cartas de amor ridículas”, subimos nos telhados, contamos a todos sobre o nosso amor, pedimos ajuda, imploramos perdão, prometemos mudanças... Até conseguimos muitas vezes, mas, em outras, o sol se põe mais cedo do que esperávamos e perdemos o que achávamos ser a nossa última chance. No entanto, para nossa grata surpresa num outro dia o sol volta a brilhar.

Como o por do sol, o entardecer da vida pode ter muitos encantos. A construção que fizemos nessa passagem pela vida é que dará sustentabilidade, alegria e beleza ao amadurecer. Isso não se improvisa. A gente constrói desde a infância, porque não há alegria do nada, mas do saldo de uma construção cuidadosa do sentido de nossa vida. O por do sol tem cheiro de saudade sim, mas é um privilégio tê-lo do que sentir saudade. “O que a memória ama fica eterno”, diz Adélia Prado. Fica eternizado em nossa memória aquilo que construímos amorosa, ética e dignamente em nosso existir.

Há certa experiência de vazio em nós que só se preenche com o sentido que damos à vida. Esse sentido terá de ser dado aos pequenos fatos do cotidiano, e até mesmo ao sofrimento. É sábio compreender que ele nos transforma, possibilita-nos crescimento, beleza interna e maturidade. Melhor que banir o sofrimento, que nem por isso se vai, seria acolhê-lo, crescer e aprender com ele. Isso seria sábio, assim como compreender e amar a vida que existe no aqui e agora, no tempo em que se vive. Na verdade, a gente só pode ser feliz agora. Ontem se foi e amanhã é talvez. A chance de ser feliz é agora ou nunca.

Sabedoria não depende de sabermos muitas coisas, mas de vivermos com intensidade, pequenas e frequentes oportunidades a que a vida nos expõe, sem deixá-las passar em branco. É possível retirar desses momentos a lição e a cota de felicidade que eles escondem.

Nos fragmentos do cotidiano podem estar contidos preciosos retalhos da vida que não temos o direito de desperdiçar. Não posso mais perder nada e nem ninguém sem amá-los e sem me deixar amar. Feliz ano novo para todos nós!

 

Zenilce Vieira - Brunozenilcebruno@uol.com.br

Psicóloga, sexóloga e pedagoga


O sexo nosso de cada dia

Postado em 23-11-2011

Particularmente aprendo e enriqueço-me com a escuta clínica, razão porque sou especialmente grata aos meus pacientes. Tenho tido o privilégio de ouvi-los em suas dores e alegrias, acertos e desacertos, face aos projetos que têm de serem felizes. Talvez, por essa experiência de ouví-los, tenha produzido textos com a marca da intimidade.

Trato simplesmente a sexualidade como isso que gira em torno de nós, de mais corporal, mais simbólico e transcendente, viajando via sentidos, exigindo satisfação e querendo expressão. Por isso, contextualizo-a em meio à vida dotada de significação. Insisto que não se perca de vista o encantamento, a paixão e o prazer como as mais belas expressões do ser sexual. São formas de comunicação e comunhão, seguidas de mistério, assombro e tranquilidade. Penso como Bachelard, “Mutilamos a realidade do amor quando a separamos de toda a sua irrealidade”.

As indisposições sexuais que se apresentam em muitas pessoas têm algumas de suas raízes no obscurecer das dimensões que são capazes de humanizar e tornar mais plena a experiência. A embriaguez do culto ao desempenho imposto pelo efêmero, pelo veloz da época faz perder de vista a magia que se esconde no pormenor amoroso. Os gestos simples tornam-se imensos porque estão cheios de promessas encantadas. Mas, o amante desatento não pode percebê-los.

Talvez, tudo isso pareça pouco afinado com as exigências da rapidez dos dias atuais. Sei, porém, que o gozo e o amor não tem pressa. A capacidade de “perder tempo” é condição necessária ao “encontrar o prazer” mais intenso. Algo de ingênuo perpassa o texto e talvez não pudesse ser diferente, pois penso que o que há de criativo e libertador na sexualidade desfaz-se das tramas da eficiência adulta e passa pela porção criança que subsiste em nós, promovendo êxtases indescritíveis e agonias inconsoláveis. A sexualidade é tudo isso e mais além que isso. Ela se situa no corpo, na experiência comum e também no extraordinário, como quem procura um ponto culminante.

O que tento transmitir neste texto já foi dito antes por autores que me antecederam no gosto e no gozo de escrever sobre sexualidade. Rigorosamente nada é novo. No entanto, imagino que esse novo tão desejado acontece dinamicamente, isto é, algo é recriado e desperta no leitor um movimento talvez inesperado, mas numa via de mão dupla: o que foi escrito e a singular decodificação de quem o lê. Nessa interação, é possível a vitória do sentido. É isso que é novo.

Aprendi neste tempo que escrevo no jornal, que terei de satisfazer-me com a resposta silenciosa do leitor em suas reações pessoais com o texto. Resta o imaginário. A certeza que uns se beneficiam, outros criticam, encantam-se, afinam-se ou não com as ideias é imaginária. O contato é estabelecido via escrita e o desejo é a comunhão. Neste sentido, usa-se a palavra não só para ser compreendido, mas também para ser amado por esse leitor desconhecido que, talvez, jamais se chegue a conhecer.

 

Zenilce Vieira Bruno

zenilcebruno@uol.com.br

Psicóloga, sexóloga e pedagoga 


Amorosidade

Postado em 24-10-2011

Na família, os pais deixam suas marcas nos filhos, inscrevem em seus corpos e em suas almas estilos de vida, valores e projetos, também sintomas indesejáveis. Os pais marcam profundamente os filhos com palavras ou silêncio, olhar de reconhecimento ou reprovação, presença ou ausência, elogio ou crítica, cuidado ou indiferença, amor ou desamor, interesse ou desinteresse pelos projetos futuros, firmeza ou fraqueza, sua capacidade de dizer sim e de dizer não. Todo ser humano precisa reconhecer-se nos pais e ser por eles reconhecido. 

O bebê humano é um ser tão frágil e dependente, que se não for cuidado amorosamente sucumbe, adoece e pode até morrer, pois não é capaz de gerir sua subsistência. Em meio a tanta fragilidade, um potencial imenso aí está, como semente, dependendo de condições favoráveis para tornar-se um grande ser humano. E não quero dizer, riqueza, abundância, luxo ou beleza física. Isso pode favorecer ou fragilizar a estrutura da pessoa. Falo de condições de receptividade, compreensão e afetividade, sobretudo por parte dos pais ou daqueles com quem convive. Do reconhecimento, lei necessária ao desenvolvimento da auto estima. Da forma de lidar com os filhos, da importância da escuta atenta, do elogio atencioso, do abraço afetuoso e do limite preciso que devem permear as relações entre pais e filhos.

A cultura costuma delegar a tarefa do cuidado amoroso dos filhos às mães. No entanto, sabemos que isso é simbólico, e que os filhos precisam igualmente do amor paterno. Os fatos têm mostrado que não basta o amor de mãe e que todo ser humano quer ser amado também por um pai. Temos nos deparado com fatos muito dolorosos no terreno familiar que nos fazem pensar nos papeis parentais.

O social, como um grande espelho, tem refletido desacertos que nos fazem questionar sobre as falhas cometidas no processo educativo. Filhos que crescem sem contatos e afeto tornam-se adultos violentos. Já não dá mais para acreditar que os desmandos familiares, passados ou contemporâneos, devem-se só à ausência da mãe que se tornou também profissional. De fato, isso apenas deu visibilidade ao lugar vazio do pai.

Torna-se crucial uma atenção maior ao vazio de carinho e de sentido que pode rondar a alma dos filhos. Esse vazio tem consequências imprevisíveis, porque não se engana facilmente, não se preenche com qualquer coisa. É vazio que gera outros vazios e produz uma busca perturbada de equivocados preenchimentos como: devaneios, bebedeiras, drogas, sexo irresponsável, altas velocidades, roleta russa, enfim, coisas que nos fazem tremer ante à imprevisibilidade das condutas inconsequentes a que assistimos.

Todo filho necessita dos braços e abraços de seus pais para sentir-se capaz de enfrentar o mundo, para que não congele no peito a capacidade de amar os filhos que terá amanhã. Quando adultos, a autoestima depende também do olhar social, que aprova e reconhece nosso valor, nossa construção pessoal, nossas produções, até que nós mesmos possamos construir um olhar próprio, um reconhecimento sobre o que fizemos a nós mesmos.

Torna-se crucial uma atenção maior ao vazio de carinho e de sentido que pode rondar a alma dos filhos

 

Zenilce Vieira Bruno, zenilcebruno@uol.com.br

Psicóloga, sexóloga e pedagoga


Patrimônio afetivo

Postado em 29-09-2011

Vivemos em uma cultura muita preocupada com acúmulo de seus bens, organização da vida, agenda lotada, relacionamentos adultos racionais, e com o olhar direcionado para um futuro tranquilo com patrimônio garantido. Haverá lugar para a vivência significativa do afeto para essas pessoas que têm tanta pressa e não sabem realmente para onde vão?

Somos todos carentes de dar e receber afeto, por isso penso ser tão difícil armazená-lo. Mas alguns conseguem e até se enaltecem disso; são donos do sentimento, não podem perdê-lo: “é meu, não dou, não troco, não negocio”. E caminham pela vida com esse sentimento guardado num cofre, ignorando que se não for retroalimentado deixa de ser sentimento. A necessidade de acumular se tornou tão enlouquecedora que até o afeto é um patrimônio, e assim o sendo não posso perdê-lo.

Penso no valor que é inerente aos projetos que fazemos de ser feliz. Há uma intenção que estrutura positivamente a busca e facilita frente à vida e ao que dela pretendemos, embora nem sempre seja possível realizar o que se tem em mira.

Creio que a luta amorosa tem também essa dignidade, esse sentido que lhe é inerente, mesmo que não se alcance o cume da experiência. Acredito que perdemos tempo quando esperamos o amor. Não encontramos o amor em si, mas razões para amar. E estas razões estão em nós e a nossa volta, mas frequentemente não as vemos ou não as percebemos. Limitamo-nos a pensar que está guardado em algum lugar.

Não podemos é nos deter no “que seja pelo resto da vida”, porque na verdade o resto da vida é tudo aquilo que se vive ao final de cada etapa. Assim atravessamos muitos “restos da vida”, porque as vidas se sucedem de restos que nascem desses finais. Na trajetória amorosa, queremos, como em tudo, a felicidade. Mas ela não é previsível, não é controlável, não a possuímos. Dela não nos apropriamos. Ela não é do tamanho do nosso cofre. Ela é sempre maior.

Necessitamos encontrar aquilo que une, que vincula, que funde com o outro, que garante crescimento na arriscada aventura da partilha amorosa. Precisamos ter a quem dedicar afeto e com quem possamos partilhar o sentido encontrado para a vida. O afeto precisa ser correspondido, precisa dessa partilha para desenvolver-se. A privação afetiva é exatamente muito nociva porque nos impede de ousar, de descobrir e utilizar o melhor de nós próprios.

Talvez esse texto seja um daqueles que tem endereço certo: é para alguém que está de mudança e se despedindo. A ambivalência se apossa do momento, a dor do deixar partir e o prazer de se deixar doar.

Embora viva conosco, assim como os filhos, o amor não nos pertence. No entanto, teremos de reinventá-lo para não ficar na nostalgia e viver o passo seguinte da vida que continua. Faço minhas as palavras de Frejat: “Desejo que você tenha a quem amar e quando estiver bem cansado, ainda exista amor pra recomeçar”.


Autoestima e sexualidade

Postado em 30-08-2011

Este importante conceito diz respeito à aceitação de si mesmo; é a vivência de nos sentirmos apropriados à vida e as suas exigências.

Estamos ainda aprisionados aos rígidos padrões estéticos. E isso reflete diretamente no exercício da sexualidade, que é modulado pela experimentação corporal e pelo sentimento de estima, a possibilidade de ser ou não admirada, amada, capaz de buscar satisfação com a integração de corpo e mente. Há pessoas que “construíram” o reconhecimento de sua estima só pelo desempenho estético, o que é mais comum nas mulheres, já que muitas ainda aprendem a usar o corpo como mecanismo de sedução.

É por estar nessa constante cobrança corporal que frequentemente a autoestima é tomada de assalto. O aumento de peso, as espinhas, as rugas, o tamanho dos seios, a barriga condenável transformam o seu estar no mundo num infeliz e constante sentimento de inadequação, rejeição e solidão.

A exigência constante em corresponder aos padrões estéticos sociais tem transformado pessoas em sintomas: paranoia, ansiedade, fobia, bulimia, anorexia. A sexualidade também adoece: um anoréxico e um deprimido têm inibição de desejo, o bulímico e o ansioso não conseguem criar vínculos estáveis; o paranoico tem constante medo de ser traído. A baixa estima que persiste no modo de viver e de se relacionar, tem profunda ligação com esta valorização da beleza e do poder.

É óbvio que todos estamos sujeitos à queda de estima diante de situações que envolvem prejuízo na consciência que temos de nossa imagem corporal. Uma doença, uma perda; é quase impossível reagir positivamente a essas situações reais e difíceis. Espera-se que qualquer pessoa possa sentir-se “inadequada” em determinado momento e que este sentimento incida sobre o comportamento, provocando também disfunções sexuais.

A confiança no direito de ser feliz e vencer os desafios da vida previnem a depressão e impulsionam para a resolução dos problemas. As relações amorosas também são moduladas pela autoestima. Conheço muitas pessoas que nem bem conhecem outra já depositam nela todo o seu valor: será que vai me ligar? Será que gostou de mim? E nem mesmo se perguntam: será que gostei dela? Será que eu quero vê-la de novo?

Há virtudes, sentimentos e traços de caráter que devem ser reforçados nas pessoas desde sua pouca idade para que possam desenvolver todas as suas referências. Assim, quando estivermos com alguns quilos a mais, isso não atingirá tão forte a nossa autoestima. Teremos como combater a frustração legitimando outros aspectos que identificamos como importantes para nós e para o grupo que nos rodeia: a inteligência, a determinação, a perspicácia, a criatividade, a capacidade de criar elos, de ser leal.

Como diz Ana Canosa, “Não há como conseguir exterminar o fantasma da rejeição de quem tem uma autoestima abalada por medo de celulite”. Acredito que não há lipoaspiração melhor do que aquela que retira o excesso de preconceito, de superficialidade e das exigências cruéis.

 

Zenilce Vieira Bruno

zenilcebruno@uol.com.brcom.br

Psicóloga, sexóloga e pedagoga


Que impotência é essa?

Postado em 09-08-2011

Estátuas esculturais espalhadas por toda cidade mostrando o nu artístico impressionavam os turistas. Meu sobrinho colocou, com sua sabedoria infantil, que Florença era a cidade dos “peladinhos”.

Na arte grega antiga, é comum se ver genitálias masculinas menores do que se esperaria para o tamanho do homem retratado na obra. Isso se devia à crença de que o pênis pequeno e não-circuncidado era mais desejado nos homens, ao passo que um pênis grande ou circuncidado era visto como cômico.


Fiquei pensando, como sexóloga que sou, na importância da retratação desse pênis, do tamanho, da ereção e no papel social que ele desempenha até hoje. Alguns valores mudaram, mas o certo é que a “potência sexual” ainda é o grande terror masculino. De que terá adoecido o homem contemporâneo que tem se tornado tão impotente? Qual será mesmo sua impotência? O que estará metaforizando sua dificuldade eretiva em tão larga escala hoje?


Creio que o uso de alguns medicamentos esteja extrapolando os fins singelos de promover uma ereção peniana. Talvez estejam mesmo é tentando atenuar o medo que o indivíduo tem de se confrontar, seja com a expectativa de desempenho que lhe é imposta, seja de se confrontar com suas próprias dificuldades de amar e ser amado. Não estará sendo usado equivocadamente para tratar a inquietação humana produzida pela cultura que encerrou a sexualidade numa lógica de potência, competência e onipotência?


Na sociedade do espetáculo em que vivemos, há um mostrar excessivo e muito real, e, nele, um desaparecimento do sujeito, do mistério e do afeto no sexo. O sintoma basta. Ele é objeto suficiente de notícias, estudos, produções farmacológicas e midiáticas; esgota-se em seu dever de potência, sem sujeito. É em torno da impotência e não do sujeito sofrente que se dá a orgia de discursos e providências, inclusive de alternativas sexuais excêntricas.


Constantemente caímos em ciladas que nos alienam de nós mesmos. Parece que construímos uma cultura de seios e bundas siliconadas e pênis eretos, e a estes deuses erguemos altares onde sacrificamos o nosso eu. As cabeças, as ideias e a mentalidade que aí se produz têm o mesmo nível. Há uma tirania e uma perversão sem par nisso tudo, cujas sequelas não podemos ainda imaginar. Por enquanto, tudo isso parece uma cortina de fumaça que encobre outras impotências, um esconderijo onde um indivíduo agoniado, conflituado com suas inseguranças é fragilizado, mas desafiado pela exigência de ser forte, herói, vencedor, the best.


Nada contra os medicamentos ou alternativas para a disfunção erétil, muito pelo contrário. Sou sempre e apenas a favor do sujeito, que por acaso esteja esquecido no contexto do seu uso. Continuo sonhando com o tempo em que possamos resgatar a força do desejo. Somado a dimensões relacionais, sensíveis, humanas, éticas e estéticas, ele será capaz de produzir muitas ereções desejáveis. Porque como dizia minha mestra Amparo Caridade “é na amorosidade entre os sujeitos que nos congratulamos com Eros”.


 


Zenilce Bruno - sexóloga



É um ser humano

Postado em 04-07-2011

A catarse torna-se possível quando se consegue encontrar imagens e expressões que digam, pelo menos parcialmente, do que nos possui. Há cenas que nossos olhos veem e reenviam para o coração, para a existência, para um pensamento racional e afetivo.

Num desses dias, uma carroça andava lentamente atrapalhando o trânsito, incomodando motoristas e pedestres. Levava trecos, coisas inúteis, cadeiras quebradas, pedaços de madeira, de ferro, objetos já abandonados por outras pessoas. Coisas velhas, sujas, feias, tidas como de nenhum valor. Mas aquela carroça podia ser promessa de comida. Mesmo assim, como pode uma carroça com coisas tão sem valor atrapalhar o trânsito num horário engarrafado e em bairro tão nobre?

Mas não era um cavalo, era um homem quem puxava aquela carroça, era um ser humano. Sem ter sequer força de um cavalo, ele disputava no trânsito, com carros potentes, que têm força de muitos cavalos. Era muito desigual a competição onde todos tinham pressa, onde as urgências de cada um marcavam o compasso de impaciência e intolerância da maior parte.

Uma mulher e duas crianças o acompanhavam. Certamente já se exercitam, desde pequenas, como ajudantes do ofício. De certa também é essa escola que frequentam. Conhecemos bem essa cena, que acontece todos os dias sob nossos olhares irritados, constrangidos ou indiferentes. Tornou-se tão natural ver um homem, uma mulher, um jovem, até mesmo uma criança, substituindo o cavalo, puxando sua carroça! A cena é, porém, constrangedora. É desconcertante ter um carro, passar ao lado e assisti-la. Pertencemos a uma sociedade avançadíssima, mas ainda permissiva dessa condição de extremas desigualdades.

Diante da frequência com que ocorrem esses fatos, exercitamo-nos na indiferença, numa não leitura do que se passa no cotidiano. O fato de um homem substituir o animal em sua tarefa de puxar uma carroça é um pouco da pele do social que nos chega como fato denunciador de que ainda somos vergonhosamente desiguais.

Também o fato de que meninas, muito crianças ainda, prostituam-se, ou são traficadas para isso, emite a mesma mensagem. Não é aquele homem da carroça que é indigno, é a sociedade desigual que o faz necessitante dessa condição de trabalho. Não são as crianças e as adolescentes que são degradadas, é a condição social, econômica e educacional em que se encontram que as fazem prostitutas precoces ao preço de poucos reais pelo uso de seus corpos. São meninas ainda, mas violentadas por uma vivência estúpida do sexo.

No entanto, reside nesse cotidiano uma polissemia, uma discursividade, uma retórica que fala àqueles que estão atentos. Na pele do social está o texto da sociedade, dos valores, da cultura na qual vivemos. Guardo a esperança de maior igualdade para que ninguém mais precise substituir animais em suas tarefas de sobrevivência, onde meninas possam brincar e estudar ao invés de vender seus corpos em troca de uma gorjeta. Dias em que a sexualidade seja vivida como partilha de prazer, não mero uso de corpos. Acredito no tempo em que vivemos, por mais que ele ainda se revele obscuro e sombrio em seus abismos. Como o sociólogo francês Michel Mafesoli, aposto também em suas esperanças.

Zenilce Vieira Bruno zenilcebruno@uol.com.br

Psicóloga, sexóloga e pedagoga

Artigo publicado no jornal O POVO


 


Sexualidade x Envelhecimento

Postado em 07-06-2011

O potencial para o prazer erótico é desenvolvido desde o nascimento até a morte. No entanto, os efeitos da idade não servem para nivelar as respostas sexuais, pois essas mudanças acontecem de acordo com a história de vida de cada pessoa.

Os casais podem e devem aprender formas de utilizar diferenças e mudanças a fim de solidificar a intimidade e aumentar o prazer e a satisfação que um pode oferecer ao outro. Para Kaplan, as técnicas de fazer amor podem ajustar-se às necessidades de estímulo de cada um, e as relações conjugais podem ser enriquecidas com adaptações mútuas, generosas e sensíveis às mudanças do funcionamento sexual de cada parceiro.

A revolução sexual nos anos 60 determinou importantes mudanças no comportamento sexual da sociedade. Entretanto, por mais que pareçam ultrapassados, os valores morais, sociais e sexuais ainda estão vivos dentro de cada um, de forma muitas vezes camuflada, quando muitos adultos continuam presos à necessidade primitiva e infantil de negar a seus pais uma vida sexual e restringi-los a papéis puramente paternais. Sexo na terceira idade é assunto ainda muito difícil de ser abordado.

A idade não dessexualiza o indivíduo, mas a sociedade sim. É ela que estereotipa e veicula uma sexualidade ligada à imagem de corpos jovens e saudáveis. Impondo aos seus velhos a obrigatoriedade de apresentar uma disfunção orgásmica, de excitabilidade e principalmente de desejo. Para alguns, esta idade é sinônima de chinelos, pijama, descanso, aposentadoria, ausência de objetivos, perda da alegria e da autoestima, sensação de inutilidade, de assexualidade e até mesmo da sensação de “morte em vida”.

Por outro lado, felizmente, há quem diga que a “vida começa aos 40”. Tem se tornado evidente a existência de mais dinamismo, novos estímulos, participação social, cultural e política, e até uma construção diferente da vida e da relação com o tempo por parte das pessoas na terceira idade.

Precisamos estar conscientes de que o envelhecimento é um processo fisiológico, não é uma enfermidade. O amadurecer pode trazer limitações físicas, mas não deve limitar a qualidade de vida, pois se o espírito for estimulado florescerá continuamente, refletindo-se na expressividade corporal.

O desejo do amor não cessa por nenhum decreto jubilatório. Amor é desejo da alma que acompanha o corpo até o fim. Velhice não quer dizer renúncia ao amor. É, em verdade, a fase da vida em que mais amamos com desprendimento. A sexualidade humana, em qualquer idade, terá de ser sempre uma invenção do espírito e um desafio à própria finitude. Sem isso, ela pode perder-se na mesmice e não encontrar sua vocação maior, ou seja, a descoberta do algo mais, do mais além de nós mesmos. Esta dimensão será possibilitada pelo afeto, caminho que descobrimos de tornar o outro especial.

Procuremos descobrir em nós mesmos a sagrada chama do amor. Algumas vezes parecerá que acabou. Mas não; soprem as brasas, mesmo sob as cinzas, e as verão arder. O amor está em nós. Ele é a nossa própria alma.

 

Zenilce Vieira Bruno, zenilcebruno@uol.com.br

Psicóloga, sexóloga e pedagoga


Orgia de intolerâncias

Postado em 12-05-2011

Modificar esse tipo de atitude supõe que se resgatem valores éticos que se coloquem a serviço do bem-estar do humano. Narcísicos, perversos e fanáticos empurram a humanidade para uma destruição de valores e da própria vida. “A tragédia em cena já não nos basta”, diz Artaud, assistimos ao vivo e a cores as destruições que procedem da orgia de intolerâncias.

O mundo atual sofre de um mal-estar que parece exigir um olhar diagnóstico cuidadoso. A vida vem sendo tratada como algo simples e desprezível, usada para fins “naturalmente” destrutivos. Um tipo de atitude que vem sendo fortalecida num contexto em que crescem os narcisismos e as intolerâncias, promovendo uma desapreciação crescente do cordial, do relacional, do amoroso.

Desde que a felicidade passou a ser buscada apenas nas coisas, no consumo, na ostentação, no parecer, no poder, e não dentro do sujeito e nas relações que estabelece, o outro foi perdendo seu lugar de parceiro e começou a ser visto como concorrente, como rival.

Na era da informação de massas e da política espetacular, a exaustão é permanente. A informação nos satura antes que a reflexão e a dinâmica social encontrem alguma solução. Somos invadidos por uma multiplicidade de imagens destrutivas que nos deixam sem fôlego. Ansiamos pelo oxigênio da paz. Mas a paz que se quer para si, para o mundo, para os povos, terá de começar por cada um de nós. Teremos que reaprender o gosto pelo ético, pelo relacional, pelo amoroso e processar corajosamente transformações internas que instalem em nós a vontade da paz, o exercício da tolerância, a capacidade do perdão.

Mágoas e ressentimentos são frequentes na experiência mais guardada das pessoas. Quem já não teve seus motivos de guardar uma dor, um sentimento rebentado, uma raiva por desejos frustrados, ou até ódio por uma situação transtornada, humilhante ou injustiçada?

Somos todos muito capazes sim desses sentimentos raivosos. Eles compõem a nossa realidade humana. Contudo, é bom lembrar que nossas mágoas não resolvidas promovem sequelas muito sérias quando realimentadas dentro de nós. Torna-se possível então uma imensa produção de destruições em nós mesmos. A qualidade da vida interna e a saúde emocional ficam prejudicadas nesse território amargurado onde não sobra espaço para alegria, leveza, partilha cordial e afeto.

Faz-se necessário o exercício cotidiano de desculpar, de tolerar, de cascavilhar menos as faltas do outro, de perdoá-lo nos pequenos deslizes. Se isto parecer muito difícil, vale a pena lembrar o que Cristo falou aos fariseus, reconhecendo o quanto eles eram hipócritas: “Atire a primeira pedra quem não tiver pecado”.

É tempo de Páscoa, que significa “passagem”. Que ensaiemos, portanto, passar do estado de raiva, de ódio e de intolerância para um estado de compreensão do humano em suas falhas e encantamentos. Somos todos maravilhosos e destrutivos. Capazes de amor e ódio. Cabe dar destino ao que somos. Cabe nos apropriarmos do que queremos ser e fazer. Perdoar é abrir mão do ódio e permitir que a vida continue.



Zenilce Vieira Bruno

zenilcebruno@uol.com.br

Psicóloga, pedagoga e sexóloga


A ética da amizade

Postado em 11-04-2011

“Robinson Crusoé, solitário em sua ilha, torna-se lentamente estúpido”. Qual a razão disso, poderíamos nos perguntar. É possível compreender que a questão se justifica pelo fato de que, os pensamentos dos outros nos são necessários, que seu olhar nos completa, faz parte da identidade que construímos. Cada ser humano deseja e necessita ser reconhecido por outras consciências, por outros eus, para então, reconhecer-se a si mesmo. Parece que, sem esse reconhecimento, sentimo-nos fora do conjunto que chamamos de humano. Nossa identidade acontece, portanto, na família, no mundo, no espaço público, diante dos outros. Os primeiros outros com quem nos defrontamos são nossos pais. É aí no face a face com eles, que vamos nos constituindo como sujeitos, amados e reconhecidos. Essa identidade assim constituída diante dos outros, revela quem somos, não o que somos. No exercício da vida, das relações, expressamos o quem somos, através das ações, daquilo que fazemos, do que dizemos, do nosso agir, da nossa conduta ética ou perversa.

Penso no lugar que a amizade pode ocupar no processo de convivialidade da sociedade. Não falo da amizade que nos distrai de nós mesmos, mas do exercício de verdade, de tolerância, eticidade e bem estar que ela possibilita. Assistimos a um crescente empobrecimento das formas de sociabilidade e de relacionamento, que talvez se deva a uma colagem de nosso imaginário aos modos estabelecidos de interações afetivas, onde se negligenciou a pluralidade e concedeu-se muita ênfase ao particular, ao meu, ao individual. Fundou-se uma economia da satisfação tão egóica, tão narcísica, tão sem projetos coletivos, que não resta lugar para os outros e suas diferenças. No entanto, seria essa a possibilidade mais imediata de nosso enriquecimento. Mudar esse imaginário obsoleto supõe uma nova política da imaginação, um pensar a atividade, considerar o que fazemos e suas consequências.

A amizade é uma possível saída ao dilema que vivemos, por um lado, a saturação das relações pós modernas globalizadas, e por outro a solidão que se torna ameaçadora. A amizade possibilitar-nos-ia também outra aprendizagem democrática. Afinal, é nesse conviver que exercitamos a tolerância, o respeito, o entendimento, a desconstrução de ideias, a reinvenção de nós mesmos, a politização dos sentimentos. Uma desconstrução necessária é a do conceito de amizade, como algo que se dá na esfera do privado, do íntimo, do fraterno, do familiar. Precisamos de novas formas de pensar e apreciar a amizade que é possível nas relações, no mundo, na sociabilidade, na política, no público.

O ato de escrever sobre isso me faz pensar no valor de estimular amigos leitores a incrementarem e valorizarem a ética da amizade, a política do bem querer. Ter um amigo é um tesouro confortável ao nosso estar no mundo. É especial contar com alguém que se dispõe a partilhar, a estar próximo de nós quando não estamos bem, ou quando estamos muito bem. Amigo não é só aquele que nos conforta no abatimento, mas sobretudo aquele que vibra com nossas vitórias. Alegrar-se com a alegria do outro requer muita generosidade. Muito da graça da vida devemos aos amigos. A eles dedico essas reflexões.


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Deputado Estadual Artur Bruno

1998 - 2017. Artur Bruno - Secretário do Meio Ambiente e Sustentabilidade (SEMA)
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