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PRINCIPAL * EDUCAÇÃO SEXUAL

 

FotoEducação sexual com  Zenilce Bruno

Zenilce Vieira Bruno é Pedagoga e Orientadora Educacional, Psicóloga Clínica e Psicodramatista, Especialista em Adolescência, Psicoterapeuta de Adolescente, Casal e Família, Especialista em Sexologia, Terapeuta Sexual e Educadora Sexual, Formação em Neurolinguística, Membro da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana, Professora do Curso de Especialização em Adolescência da UFC, Professora do Curso de Especialização em Psicologia da Adolescência da UNIFOR, Consultora, Colaboradora e Colunista dos Meios de Comunicação sobre Adolescência e Sexualidade Humana.

zenilcebruno@uol.com.br

Cinquenta tons de liberdade

Postado em 24-10-2012

O livro Cinquenta Tons de Cinza é a sensação do momento. No Brasil, sua venda chegou a 260 mil cópias em 40 dias. Por que tanto frenesi em torno do livro? A resposta é simples: sexo. A história da submissa estudante Anastasia Estelle, que se envolve com o bilionário bonitão e dominador Christian Grey, é recheada de sexo explícito e sadomasoquismo. 

Apesar dos comentários entusiasmados de muitas leitoras, é importante lembrar que o feminino está para além da mera sensação. Trata-se de um prazer globalizante, não apenas genital, mas pele total, sensação mesclada de sonho, poesia e metáfora. Corpo de mulher é assim, meio matéria, meio espírito. Atingida só no corpo matéria, não é alcançada em sua potencialidade. Frustra-se e frustra os homens que não a percebem como tal.

A mulher liberta, que tem a sexualidade e o prazer legitimados, não receia a si própria, não teme a aventura da sensação que cada parte do corpo pode lhe proporcionar. Sua peculiaridade é ser erógena de corpo inteiro, e, se for tocada com sabedoria, revela uma gama imensa de sensações prazerosas.

A mulher goza em seu corpo e para além dele. Por isso ela evoca uma linguagem que nem todos os homens entendem; apenas aqueles que se superam em sua genitalidade, que vão além da mecânica dos corpos e do prazer que daí resulta. “Não se nasce mulher, torna-se mulher”, anuncia Simone de Beauvoir. Diria que, também não se nasce com o corpo erógeno pronto, mas em potencial. Ele se estrutura no contexto interativo de atitudes e linguagens que cercam o indivíduo, e que vão sendo internalizadas no curso de cada história.

Como psicóloga e sexóloga que sou, confesso que a discussão sobre o livro é muito mais importante do que o conteúdo em si. Pois para as mulheres restava apenas assistir aos filmes pornôs, quase sempre sugeridos por seus parceiros. Agora, com o mesmo, conseguiram ser autoras de suas próprias fantasias. No entanto, temo que depois das intumescências físicas, reste o vazio da falta de sentido desse sexo fora de si mesmo. É preciso ter clareza quanto ao que se busca e questionar a urgência de desempenho que atormenta as mulheres atuais. Essa urgência é de ordem pessoal ou midiática? É para atender um apelo do seu desejo, ou para integrar o rebanho que postula ser mais feliz fazendo sexo pelo sexo, prezando a quantidade mais que a qualidade?

Fico a meio termo. Nem com os vitorianos repressores, nem com as entusiastas do Christian Grey, quando o apresentam como tábua da salvação do prazer feminino. Prefiro acreditar ainda que somos capazes de gozar quando estamos bem conosco e a relação é regada de sentido e afeto. Prefiro a não submissão a orgias de desempenhos. Prefiro propor que o sexo aconteça no encontro entre duas pessoas que se olham, se tocam, se excitam e se amam. Prefiro não alimentar para nenhuma mulher a ilusão de que esse tipo de fantasia vai ser a salvação. Ela serve apenas para intumescer os genitais. É claro que isso ajuda, mas não é tudo. Não intumesce o desejo, o afeto, o sentimento, o sentido. E mulher gosta que sexo seja regado a tudo isso.

  

Zenilce Vieira Bruno

zenilcebruno@uol.com.br

Psicóloga, sexóloga e pedagoga


Um divã para dois

Postado em 01-10-2012

Enquanto Cinquenta Tons de Cinza tenta convencer leitoras de que toda mulher tem dentro de si uma perversa, o filme Um divã para dois trata das fantasias femininas, colocando Meryl Streep no papel da mulher de desejo reprimido.

Retrata um casal de terceira idade que, depois de 30 anos juntos, não parece ter mais interesses em comum. A esposa, sentindo-se sozinha, decide, a contragosto do marido, que se consultarão com um terapeuta de casais. O filme funciona, antes de tudo, como uma teleaula, com o personagem do terapeuta fazendo algumas perguntas incômodas ao casal que, por extensão, os espectadores também farão a si mesmos. Hábitos na cama e outras intimidades a dois que o tempo transforma em inércia.

Todas as necessidades se concentram na mais intensa e imediata delas: o sexo. Obviamente não se trata só disso, mas é esse elemento que se apresenta como porta-voz de todos os anseios do casal. Porém, não é fácil conseguir isso de seu parceiro conjugal de décadas. Não pela falta de vontade, mas por todo o constrangimento que esse tipo de necessidade, naquele contexto e idade específicos, gera.

Na minha opinião, o filme é um alerta aos casais. Sabemos que a solidão fica intolerável quando o outro não nos alcança, não quer, não pode nos ouvir ou não entende o que queremos dizer. Ou quando nós mesmos não sabemos fazer isso, não sabemos nos escutar, acolher-nos, considerar-nos. Somos uma cultura sem o exercício de partilha e escuta.

Não pretendo aqui fazer o papel de crítica de cinema, mas, como terapeuta de casais, não poderia deixar passar uma oportunidade tão rica de questionar os leitores sobre suas vidas amorosas. Escrevo sobre amor, sexo, relacionamentos e recebo muitas perguntas de como manter o casamento, o namoro, o ficar. O que é preciso para um relacionamento se manter vivo? O filme passa 100 minutos tentando encontrar a resposta para uma pergunta tão complexa. Afinal, nem sempre um relacionamento longo é sinônimo de um bom relacionamento. Ser feliz é uma arte. Ser feliz sexualmente é uma arte a dois, que tem origem no encontro das pessoas, não apenas dos corpos. A dimensão feminina que está tanto no homem como na mulher aprecia muito o sexual vivido com sentido e afeto.

Um divã para dois tem construções verdadeiras, em embaraços reais de personagens que aprendemos a gostar. As cenas da fantasia sexual são muito bem construídas. A forma como Meryl Streep se encolhe e se desnuda de vaidades, ao mesmo tempo em que Tommy Lee Jones está visivelmente desconfortável e quase não acredita quando a esposa diz não ter fantasias, é tocante.

Tudo é construído de uma maneira muito honesta, desnudando não só os personagens, mas muitos casais que atendemos nos consultórios ou com os quais convivemos socialmente. E os dois atores constroem isso com muita verdade, por isso, a identificação é tão forte. Torcemos para que eles possam nos provar que é possível continuar e encontrar a intimidade de uma relação plena. Para que o amor não seja apenas eterno enquanto dure, mas que possa existir mesmo um “felizes para sempre”. Nem que para isso seja mesmo necessária a ajuda de “um divã para dois”.


Eros e Psiquê

Postado em 03-09-2012

Psiquê era uma princesa grega, de tão rara beleza, que atraía os olhares de todo os habitantes que por ela passavam. Isso despertou a cólera de Vênus, que se sentiu desprestigiada pelo fato de o povo encantar-se com este novo prodígio da beleza. Ninguém mais lhe rendia louvores e seus templos andavam vazios de fiéis adoradores. 

Ciumenta de seu status de deusa da beleza, Vênus manda à Terra seu filho Cupido, o deus Eros, para castigar a mortal Psiquê. Eros, porém, apaixona-se por ela e a desposa. Indignada, Vênus planeja os tipos de suplícios que irá infligir, e submete Psiquê a duras penas, provas amargas, trabalhos acima de sua capacidade. São tão grandes os tormentos que ela só consegue superá-los com a ajuda de Eros. Essa bela e atormentada figura de Psiquê é a representação de nossa alma humana.

É sobre essa “alma” humana que se debruçam os profissionais de Psicologia. Para alcançá- la, compreendê-la, faz-se necessária uma capacidade de escuta, que ultrapassa as fronteiras do simples ouvir os sons das palavras. Escutar é muito mais que isso. É tentar alcançar nessa alma, inquieta e maravilhosa, a dimensão da dor que carrega, a intensidade da alegria que experimenta, a ânsia de crescimento que lhe provoca, ou a inquietação existencial que lhe angustia.

O que podem as palavras diante de uma lágrima? Ouvir assim possibilita alcançar o não dito, ou o impossível de dizer. É uma escuta paciente mas ativa, que flua e tece, que aguarda o instante possível, que não se antecipa em soluções apressadas, que não anuncia nenhum saber, que não dá conselhos. Ela produz seu efeito na medida em que, ao flutuar, junta partes fragmentadas, e possibilita ao outro, elaborar sua dor, seu projeto, seu inferno ou paraíso emocional.

A junção de Eros e Psiquê, amor e alma, sugere que a alma humana pode superar seus tormentos através do cuidado amoroso. Sugere também aos profissionais psicólogos que a arte de escutar deve ser feita com amor, competência e cuidado. As resultantes dessa escuta para o outro podem ser a busca de encontrar-se, de ser ele mesmo, de superar o que lhe impede de acolher-se como humano que é: belo e transtornado.

Para fazer bem isso, é preciso amar o que se faz. O homem contemporâneo clama por ser ouvido, escutado, alcançado e acolhido nessa junção que o faz maravilhoso e inquieto. A alma do povo, cujos gemidos surdos se fazem notar nos sintomas da doença, da fome, da miséria e da violência, quer ser ouvida com consideração, justiça e respeito.

O mundo precisa de novos paradigmas de convivência. Precisa de ouvidos escutantes e não ensurdecidos aos apelos da vida e da dignidade humana. O planeta pede socorro para sobreviver, precisa ser ouvido em suas ordenações ecológicas. São plurais as necessidades de escuta! Urge escutar os apelos da alma de nosso tempo. Escutar é um antídoto contra o descuido. Dia 27 de agosto é dia do psicólogo. Parabéns aos colegas escutadores.

 

Zenilce Vieira Bruno

zenilcebruno@uol.com.br

Psicóloga, sexóloga e pedagoga


O adolescente on line e off lline

Postado em 30-07-2012

Para os jovens brasileiros, a internet tornou-se mais importante do que ouvir música, sair com os amigos e até mesmo namorar. É o que revela uma pesquisa da Cisco em 14 países. Nela, 72% dos universitários do Brasil afirmaram dar prioridade à internet e 50% admitiram que o contato pelo Facebook é mais importante do que o pessoal. 

O papel crescente das redes sociais na vida dos jovens apontado pela pesquisa não surpreende quem acompanha o comportamento deste publico. Mas a forma como elas começam a se tornar mais importantes do que os contatos pessoais chega a espantar. No Brasil, três em cada cinco entrevistados disseram que a internet passou a ser tão necessária quanto água, comida e moradia. Espantosamente, 72% dos universitários do País preferem navegar na internet a namorar, ouvir música ou até sair com os amigos. Entre os que trabalham, 75% afirmaram não conseguir viver sem internet.

Uma certeza me acompanhou na leitura da pesquisa: as informações são abundantes e assim que encontrava um dado ele já ficava obsoleto. Instantaneamente, a última informação era atualizada numa velocidade que não dá para ser medida.

Crescimento, mudança, inovação, rapidez: são as palavras que mais apareceram enquanto pesquisava o consumo de mídia e tecnologia nos tempos atuais. Percebi que os conceitos de on line e off line são ultrapassados; aliás, para esses jovens, nunca existiram. Os jovens são imediatistas, hedonistas e sem percepção do tempo. Essa geração valoriza portabilidade e acesso. Se antes o jovem navegava na internet grudado na cadeira e ao computador de mesa, agora ele vai estar cada vez mais conectado por diferentes gadgets e em qualquer lugar. Mesmo considerando que sempre haverá jovens apaixonados por livros, revistas e jornais impressos, esses meios serão consumidos na forma digital pela maioria.

A possibilidade de produzir o próprio conteúdo é um dos maiores ganhos que a tecnologia e os meios de comunicação trouxeram para eles. Na verdade, eles sempre o fizeram, mas a democratização das ferramentas de produção e a distribuição os estimulou ainda mais a produzir e publicar vídeos, músicas, fotos e blogs.

Há uma grande discussão sobre a qualidade desse material como contribuição cultural, educacional e de interesse público. Mas os estudos antropológicos revelam que os desenhos nas cavernas e os hieróglifos egípcios nada mais eram do que a reprodução de cenas do cotidiano. Neste estudo, 35% dos jovens declararam o hábito de manter um blog ou fotoblog. Quantos jovens teriam a oportunidade de publicar um texto ou de gravar uma música em outros tempos?

Portanto, independente do papel que cada um tenha na vida do jovem, como pai, educador, profissional de marketing ou de mídia, os desafios serão constantes. Os pais reconhecem que a vida moderna rouba um tempo do dia a dia que deveria ser dedicado aos filhos. Estão mais ausentes, distanciaram-se da educação deles. Para suprir essa falta de atenção, seus filhos podem estar substituindo as horas de convívio pessoal por horas ao computador e outros meios de relacionamento. Os pais sabem da importância da tecnologia e dos novos meios de comunicação no desenvolvimento de seus filhos, mas têm como desafio não perder o convívio pessoal, a conversa “olho no olho” e a posição de pais.

 

Zenilce Vieira Bruno

zenilcebruno@uol.com.br

Psicóloga, sexóloga e pedagoga


Máquinas desejantes

Postado em 02-07-2012

Atravessamos momento social muito pouco metamotivado. Estamos submetidos à cultura da velocidade, do efêmero, do consumo. Somos uma cultura em que não há tempo nem energia para as pessoas sentirem e usufruírem de sua potencialidade prazerosa. Em meio à desconfiança, à violência, ao “salve-se quem puder”, faltam chão e disponibilidade para o desarmamento e a entrega necessários à experiência amorosa. É nesse contexto que as pessoas exigem cada vez mais performance e um desempenho sexual “tecnizado”, capaz de assegurar um funcionamento padrão às nossas “máquinas desejantes”. O prazer se dá mal com esse modelo.

Crescem, na minha observação clínica, a queixa de diminuição do desejo e o desencanto com o prazer obtido, esmagadoramente menor que as expectativas mantidas. As pessoas parecem desconhecer que podem buscar um mais além de si e perdem-se na mesmice empobrecedora da experiência sexual, numa mera busca de orgasmos sem nenhum gozo mais além. Como uma imposição que lhes pesa, sobre a referência que fazem de si como seres sexuais. Na época da liberação, temos a impressão da expansão, embora, na verdade, vivamos em contração. Gaiarsa diz que toda expansão é prazerosa e toda contração é angustiante.

Parto dessa inquietação para considerar a importância de que a sexualidade seja pensada e inserida no viver em totalidade, isto é, que ela seja situada como um aspecto entre outros do existir humano. Magnificá-la para além de sua dimensão, fazer dela o todo, condição única de felicidade, é irreal e pode gerar efeito contrário. Transformá-la num monstro que nos possui vai torná-la mais sufocante que libertadora. Fazer de sua vivência, em moldes pré-estabelecidos, condição de normalidade pode tirar-lhe a espontaneidade e empalidecer o bem que ela representa na vida. Por isso, a “deseleição” do sexo-rei parece-me mais libertadora. Assim o indivíduo poderá sentir-se bem ao gostar de sexo, como gosta de arte, de política, de tocar um instrumento, ser um bom gourmet ou escrever poesias. Não terá de ser um atleta sexual para conformar-se a padrões estereotipados e consumistas que são impostos.

O conceito de estresse é bem compatível com a visão sistêmica da vida, mas só pode ser bem apreendido quando uma sutil interação mente e corpo é percebida. Estresse pode ser compreendido como um desequilíbrio do organismo em resposta a influências ambientais. Ele ocorre quando uma ou diversas variáveis do organismo são forçadas até seu limite, o que induz a um aumento de rigidez em todo o sistema. Prolongado, gera incapacidade para integrar as respostas do corpo a nossos hábitos culturais e regras sociais de comportamento. Por isso, ele é fonte geradora também de dificuldades sexuais, que surgem como gritos do organismo exausto, em sua força física, em seu estado emocional ou dimensão existencial.

Uma dimensão humana perpassa as disfunções sexuais e podemos entendê-la a partir do fato evidente de que somos um todo e funcionamos na inteireza disso que somos. Cresce esse reconhecimento entre os estudiosos e atualmente sopram fortes outros ventos teóricos fazendo ver que a pessoa age em totalidade, entrelaçando-se e interagindo com os outros e com o universo.

 

Zenilce Vieira Bruno - Psicóloga, sexóloga e pedagoga - zenilcebruno@uol.com.br

 


Utopias da paixão

Postado em 04-06-2012

Tenho um belo e otimista costume de escrever sobre o amor e parece paradoxal refletir hoje sobre o processo do desapaixonar-se. Isso, contudo, se faz necessário para que a relação amorosa possa ser percebida e sentida do modo mais humano possível, isto é, como de fato ela ocorre. 

Paixão é um estado maravilhoso e provisório, não implicando que as vivências apaixonadas não valem a pena por serem tão provisórias. Valem sim! Elas são experiências que integram projetos de felicidade. Por mais dolorosa que seja essa provisoriedade, o indivíduo pode sair enriquecido existencial e emocionalmente da experiência.

Penso num valor que é inerente aos projetos que fazemos de ser feliz. Há uma intencionalidade nesses projetos que estrutura positivamente a busca e facilita a consecução dos objetivos frente à vida e ao que dela pretendemos. Embora nem sempre seja possível realizar o projeto que se tem em mira.

Minha grande mestre e amiga Amparo Caridade falava da dignidade que é inerente ao lutar e que não haveria muito mérito em lutar se já contássemos com a certeza do sucesso. Fazia ver o quanto a luta é digna em si mesma e que necessariamente ela não tem que resultar em vitória.

Questiono sobre o que saberíamos da emoção mais densa se não ensaiássemos a paixão, o amor, a partilha do sonho e do gosto de ser feliz. Neste sentido, a experiência é válida mesmo que não dure eternamente. O que faz eterno é o gesto, por mais breve que ele seja. Por isso é tão importante que aprendamos os gestos que valem a pena ser eternizados e evitemos aqueles que ferem o eu do outro.

Mas, também, outros gestos podem fazer adormecer, inibir em nós, o encantamento do extraordinário: a incapacidade do outro de dizer que ama, seu ritmo bioexistencial em descompasso, sua incompetência gestual, seu desinteresse pelo romântico, sua cristalização no igual, sua morosidade no criar. Tudo pode ser ora maravilhoso, ora frustrante.

Estagnamos a relação se nos detivermos na ilusão da perfeita unidade, na utopia da completude, se não pudermos suportar e amar o outro como ele é: insuportável e maravilhoso. Diria que a relação amorosa é uma busca inquietante e que isso promove um desassossego que nos faz permanecer num devir constante.

É no contexto de dores e alegrias que experienciamos o que há de mais denso emocional e sexualmente. O difícil é admitirmos que a realidade amorosa tem essas duas faces. Qualquer parte dela negada nos torna mais pobres experiencialmente. Porque assim é a vida, a existência, o sexo, a música, o universo, as pessoas em relação.

  

Zenilce Vieira Bruno

zenilcebruno@uol.com.br Psicóloga, pedadoga e sexóloga


Partilha amorosa

Postado em 08-05-2012

Todos nós sabemos o que é sexo e o que é afetividade; isso está no nosso íntimo. Mas algo nos faz querer ouvir mais, encontrar referenciais para incertezas que nos perseguem. Estas quase sempre da ordem do relacional, do quanto o outro nos deseja, nos preenche. Necessitamos encontrar aquilo que une, vincula, funde com o outro, garante crescimento na arriscada aventura da partilha amorosa. 

Queremos outras existências e um outro a quem dedicar afeto e com quem possamos partilhar o sentido encontrado para a vida. O afeto precisa ser correspondido, precisa dessa partilha para desenvolver-se. Haverá lugar para a vivência significativa desse afeto nesse mundo que tem tanta pressa e não sabe aonde vai?

A sexualidade é uma energia que nos impulsiona à busca do prazer, mas um prazer plural, que jamais se esgota na genitalidade. Ela é boa na medida em que faz sentido o que é vivido, em que faz crescer as pessoas. Torna-se uma forma de enriquecimento quando acontece o abandono de si e a acolhida do outro.

É a partir desse contexto que penso o lugar do afeto na vivência sexual como a emoção que torna o outro especial. No terreno sexual-afetivo, as coisas não são simples, porque nutrimos mal entendidos e repetições que maltratam muito o cotidiano. O exercício de poder entre parceiros, as divergências entre masculino e feminino, por vezes, sobrepujam o gosto de amar. Que se abandonem os preconceitos e se honrem igualmente as qualidades, porque “o amor é um exercício de felicidade, não de poder”, diz A. da Távola.

É essa qualidade da comunicação entre parceiros que possibilita um relacionamento significativo e satisfatório, em que cada um está à procura de si mesmo, mas na interface com o outro e onde a ternura confirma a existência do outro como “uma segunda pele necessária”. Não podemos prescindessa partilha quando queremos saber mais profundamente de nós mesmos. Aprendo de mim e me descubro afetiva e sexualmente quando ouso o melhor da relação. A privação afetiva é muito nociva porque nos impede de ousar, de descobrir e utilizar o melhor de nós próprios. Faço minhas as palavras de M.Scott Peck: “Quando amamos alguma coisa ela tem valor para nós, e quando alguma coisa tem valor para nós passamos tempo com ela, tempo desfrutando dela e tempo cuidando dela”.

Tocar e trocar são desejos naturais, movimentos em favor da vida e do bem-estar humano. O toque é a linguagem básica do sexo, da ternura, é condição de saúde emocional. Adoecemos por falta de proximidade, de contato, de carícias. Aí o organismo dói e produz sintomas que têm significação para além do que aparece. Gaiarsa diz com apropriada ironia que “quanto mais civilizados, mais assépticos, mais distantes e mais frios”. Só palavras. Pouca mímica. Nenhum contato. Ele considera isso uma maldição que nos faz perder horas de prazer e felicidade. Criamos uma sociedade em que as pessoas não se tocam fisicamente, nem noutros sentidos. A tendência é as palavras ocuparem o lugar da experiência. Para acontecer o contato, a intimidade, precisa-se de humildade, simplicidade e desarmamento. Precisa-se de um bem-estar consigo mesmo e com o outro. J. Salomé resume, dizendo: “precisa-se de ternura natural, desesperadamente”.

 

Zenilce Vieira Bruno - Psicóloga,sexóloga e pedagoga


O que faz você feliz?

Postado em 09-04-2012

Estamos sempre sendo convocados a "ser feliz", a providenciar um bem-estar, uma alegria, mesmo que provisória. Há uma expectativa da nossa cultura para que reine felicidade à nossa volta numa espécie de rito festivo. Antropológico por um lado, a felicidade nas datas festivas compõe o modo humano e social de promover alegrias, mas, em geral, esse rito é apropriado pelo sistema para nos fazer consumir. Quando isso ocorre, termina por tornar-se aparência, porque se esvazia do sentido humano da solidariedade, da amizade, e se transforma numa gincana consumista, que faz feliz, sobretudo, os donos das mercadorias.

Não se é feliz ou se fica feliz simplesmente por um decreto. A felicidade que perseguimos independe de calendário, de bens de consumo ou de jovialidade à mostra. Felicidade é uma construção humana, paciente, uma arte de existir.

O tempo festivo por vezes atiça nossas angústias ao confrontar a condição pessoal interna com o agito da alegria externa. Vivemos todos experiências de dor, de sofrimento, de vazio. É preciso não enganar esses sentimentos com compras, busca de beleza física, carro do ano, imóvel novo ou outras aquisições. Somos também nossos sentimentos inquietos. Eles fazem parte de nossa humanidade. Em geral é mais fácil comprar algo para enganá-los do que entendê-los.

Não imagino que a felicidade também possa acontecer na resignação e no êxtase, via álcool, drogas ou outras formas de alienação. Ser feliz tem uma dinâmica. Acho mesmo que certo descontentamento move-nos na direção sagrada do além, de criarmos algo novo que possibilite sentimentos apreciáveis. A capacidade de administrar nossa felicidade é humana e não poderemos ser felizes ao preço da ética, da moral e do bem-estar dos outros. O ideal é aprendermos a dar mais atenção ao que somos e a querer ser feliz com isso, onde cada um procure a felicidade que carrega em si.

É uma espécie de cacoete social essa busca contemporânea de uma felicidade ininterrupta, esse paradoxo do estresse do ter que ser feliz a qualquer preço.

Kant, ao contrário disso dizia que a “felicidade não é o bem supremo e fim último da vida”. Ele imaginava que “ela coroaria a consciência do dever comprido”. Isso muda o foco do entendimento do tema e nos leva a pensar que a felicidade não é algo ligado ao ter ou parecer, como se costuma pensar. Ela tem algo a ver com nosso agir. É o que fazemos que tem sentido. São as ações que marcam nossa passagem pela vida, que dizem de nós. “A fé sem boas obras é morta”, diz a Bíblia com sabedoria.

Podemos sonhar com uma humanidade mais cordial e isso acontecerá quando começarmos a ser mais amáveis uns com os outros, sobretudo os outros mais próximos de nós. A amizade pode ser o caminho de amorosidade necessário ao bem-estar das relações. Devemos sim autorizar a emoção da coisa simples e bela que há na vida e no viver. Que a vida seja de festa e de alegria interna e externa para todos. Que sejamos todos escultores de uma humanidade mais feliz e realmente humana.

 

Zenilce Vieira Bruno

zenilcebruno@uol.com.br

Psicóloga, sexóloga e pedagoga


Encontros, desencontros e reencontros

Postado em 13-02-2012

Este é o título de um livro de Maria Helena Matarazzo, minha colega da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana. No nosso último Congresso, disse a ela que ainda escreveria algo com esse título e hoje me sinto inspirada e autorizada a fazê-lo. 

As redes sociais têm facilitado muito nosso contato com antigos colegas de colégio, faculdade, e nos motivam a marcar um grande reencontro. É inacreditável como parece que nunca nos separamos. As mesmas brincadeiras, conversas e até planos como se fôssemos recomeçar a vida e, enfim, fazermos aquilo que planejamos na juventude.

Sempre saímos desses momentos renovados e com datas marcadas para o próximo reencontro. Tudo seria perfeito se a vida não voltasse ao normal e analisássemos o que estamos fazendo e principalmente com quem estamos vivendo.

Vem, em alguns casos, um sentimento de frustração e tristeza. Cadê aquela jovem garota que já chegou até a ser miss? E o jovem sonhador? Estão quietinhos e muitas vezes solitários. Alguns se tornaram grandes estrelas, outros não conseguiram brilhar. E, para ser sincera, alguns vibram com nosso sucesso. Outros, nem tanto.

E a grande questão é: o que fazer com esses sentimentos? Alguns não vão aos encontros exatamente por desconhecerem suas capacidades de lidarem com um “novo velho”. “Será que vão me achar gordo, chato, fracassado?” Com certeza acharão se é assim que você se sente. Mas outros não, vestem sua melhor roupa, dão uma “repaginada”, levam seu “currículo” profissional e pessoal e seguem numa alegria invejável. Esses sim vão ter um reencontro maravilhoso. Outros são indiferentes, foram os que deixaram “a vida me levar” e até hoje não sabem onde foram parar. Desses ninguém sente falta, talvez na hora da fotografia do grupo ou na despedida do encontro.

Mas o que mais me encanta, e não poderia deixar de ser, são os reencontros amorosos! Depois de tantos anos resolvem dizer finalmente que eram apaixonados, e, na maioria das vezes, com grandes risadas, mas em outras com algumas lágrimas de atraso e desencanto. A conversa quase sempre gira em torno do que poderia ter sido. Mas a melhor parte é renovar os planos e sentimentos. Aí vemos no casal uma alegria juvenil indescritível!

Recomeçar é mais difícil do que começar. Existe um medo enorme de errar de novo. Parece ser a última chance, e muitas vezes é mesmo. Mas cabe a quem encontrou, desencontrou e finalmente reencontrou aproveitar cada momento vivido sem esse tal medo de errar, porque iremos sim continuar sendo nós mesmos, provavelmente com mudanças, mas nossa essência será sempre a mesma. Talvez o grande causador das separações seja o desconhecimento dessa essência e que só depois de algum tempo temos maturidade para reconhecê-la.

Com a honra de escrever aqui o que penso, tenho a ousadia de oferecer o artigo de hoje a todos que durante os meus 50 anos passaram pela minha vida. Para os que eu encontrei, desencontrei e reencontrei minha grande alegria. E aos que eu não consegui mais abraçar, muita saudade!

Recomeçar é mais difícil do que começar, existe um medo enorme de errar de novo.

 

Zenilce Vieira Bruno, zenilcebruno@uol.com.br

Psicóloga, sexóloga e pedagoga


Tristeza amorosa

Postado em 17-01-2012

Resolvi neste início de ano escrever sobre os temas mais solicitados e comentados dos leitores. Tenciono ir desaquecendo aos poucos meu papel de articulista e assim vou tentando fechar algumas ideias e emoções. Procurando, é claro, deixar sempre um espaço em aberto para o preenchimento poético do leitor. Um artigo vale mais pelas questões que suscita. Assim sendo, o mérito não está na saturação das respostas e sim na pertinência das indagações. O mais saboroso é o mistério das entrelinhas que as palavras não conseguem dizer mas insinuam. 

Tenho questionado o que há de encontro e de sexualidade em toda essa forma que prolifera, de erotismo industrializado que vai assumindo cada vez mais a fugacidade da relação. Estamos na época do “voyeurismo” típico dos tempos de Madonna, da “pegação” dos strippers e dos extrassexuais, que ofertam e buscam libidinagem sem sexo, da “ficação” fortuita com alguém numa noitada, tudo encaminhando experiências em forma de relações objeto, destituídas do relacional com o outro como sujeito. Nesse modelo, nem importa saber o nome de quem se toca, afaga ou beija e quantos corpos se tocam numa mesma noite.

A identidade se perde nesse identificador de personagens e cede lugar ao uso do corpo para meras sensações. Até mesmo uma “androginia de visuais” confunde as pessoas nessas orgias em que nem se sabe se é atraído pelo masculino ou pelo feminino. Tudo levando a crer que a “livre expressão libidinal” industrializada e lucrativa supõe um corpo objeto, um consumo de imagens e sensações, não emoções partilhadas no relacional. Essa simulação, essa caricatura, promove formas de sexualidade, não relações. Isso interessa ao sistema que aplaude a superficialização dos cidadãos. Ciro Marcondes acha que é nessa aparência de sexualizar que se dá a dessexualização, pela redução do sexo ao mecânico, ao automático, repetitivo e vazio.

Assistimos a uma espécie de diminuição das relações apaixonadas, e até mesmo o desenvolvimento do medo da experiência mais profunda, da emoção inevitável, do doer de paixão. É grande, hoje, a evitação do envolvimento amoroso, o descompromisso com a emoção e com a pessoa e, em troca, elegem-se experiências passageiras, nenhuma verticalização do sentimento.

Mas é grande também a insatisfação, filha do vazio que resulta do não encontro. Vivemos, assim, uma tristeza amorosa. Saímos da era dos impedimentos para uma era da produção de liberdades que nega a paixão, o utópico, o metafórico, o extasiante, a dimensão onírica da pessoa.

O tema evidencia que a paixão carece de obstáculos a serem superados e que os apaixonados os enfrentam numa arrojada dinâmica do impossível. O mito de Eros defende que o amor não pode crescer sem paixão. Diante disso, questiono: que obstáculos têm hoje os amantes a enfrentar, considerando-se que toda libidinagem está posta à mesa, ao consumo e ao lucro de investidores e consumidores modernos?

São frágeis os limites postos pela família e sociedade para consumos libidinosos. Uma filosofia da “facilidade” erradica os impedimentos. Mas é curioso observar que vivemos intensamente enquanto temos razões para lutar. Se não há mais barreiras contra as quais se opor, vive-se superficialmente. 

“Como é que vou crescer sem ter com quem me rebelar?”, cantava o grupo Ultraje a Rigor.

 

Zenilce Vieira Bruno - Psicóloga, pedagoga e sexóloga


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Deputado Estadual Artur Bruno

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