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PRINCIPAL * EDUCAÇÃO SEXUAL

 

FotoEducação sexual com  Zenilce Bruno

Zenilce Vieira Bruno é Pedagoga e Orientadora Educacional, Psicóloga Clínica e Psicodramatista, Especialista em Adolescência, Psicoterapeuta de Adolescente, Casal e Família, Especialista em Sexologia, Terapeuta Sexual e Educadora Sexual, Formação em Neurolinguística, Membro da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana, Professora do Curso de Especialização em Adolescência da UFC, Professora do Curso de Especialização em Psicologia da Adolescência da UNIFOR, Consultora, Colaboradora e Colunista dos Meios de Comunicação sobre Adolescência e Sexualidade Humana.

zenilcebruno@uol.com.br

Construção da sexualidade

Postado em 26-08-2013

Pensar a educação sexual visualizando a inteireza da pessoa é remeter a questão à anterioridade do nascimento, quando o casal opta pela criança. Somos seres do desejo, e desejar ter ou não um filho marca profundamente as relações entre o pai, a mãe e a criança. O bebê desejado, bem vindo ao mundo, certamente é tocado, cuidado e amado sem barreiras. Nessa atitude amorosa primal estrutura-se a dimensão primeira da sexualidade, numa relação epidérmica e experiencial, anterior à palavra não conceitual. Aqui os gestos falam mais alto e podem alicerçar no indivíduo o gosto futuro pela vida amorosa.

O cuidado é a expressão concreta do amor, é um estado no qual algo tem importância. Essa dimensão registra para a criança sua condição de “ser desejável”. Poderá a criança mal cuidada, mal amada, mal tocada sentir-se desejável? Além disso, a vivência prazerosa e expressiva da sexualidade dos pais é a mais autêntica e eficiente educação sexual.

Entretanto, a grande maioria pertence a uma geração que silenciou a própria sexualidade como forma de negá-la, de reprimi-la, o que dificultou o desenvolvimento de atitudes livres e transparentes frente à própria vivência do sexo. O saldo disso é a inquietação e insegurança face à sexualidade vivida e questionada pelos filhos.

A escola precisa continuar o trabalho de educação sexual repensando dimensões esquecidas, visões distorcidas ou negadas da sexualidade sem, contudo, substituir a família, porque a criança não chega à escola com o corpo transparente, em estado de nudez, mas já com diversas inscrições acerca do sexo. A interação família-escola torna-se fundamental, para que ela não se torne alvo da duplicidade de discursos e de atitudes em seu processo educacional.

A tarefa de educação sexual torna-se emocionalmente custosa, também aos professores, igualmente pertencentes a esta cultura, que muitas vezes, não se sentem disponíveis, tranquilos e maduros frente à própria sexualidade. Mesmo assim, quase sempre a escola torna-se o espaço mais aberto onde as crianças e adolescentes fazem seus questionamentos.

Nos debates sobre a sexualidade, tenho observado que os jovens fazem perguntas que os pais e mesmo os mestres não se atrevem a fazer. São gerações diferentes, sinalizando as relações de fechamento-abertura frente ao discurso do sexo. É função da educação sexual suscitar, estimular a troca e o encontro entre as pessoas.

Troca e encontro é que possibilitarão as mudanças nas relações sociais. Uma revisão de padrões machistas e o estabelecimento da igualdade e liberdade para ambos os sexos torna-se imprescindível. Fora disso, tudo o que for alterado levará a novas formas de repressão. A possibilidade da partilha amorosa está na igualdade, na relação “eu-tu”. Na desigualdade, está a dominação-submissão, a relação “eu-isso”. Que não invertamos os termos da relação a ponto de amarmos as coisas e possuirmos as pessoas.

Fonte: O Povo - 25/08/2013


Trajetória amorosa

Postado em 29-07-2013

Na trajetória amorosa, queremos, como em tudo, a felicidade. Mas ela não é previsível, controlável, não a possuímos, dela não nos apropriamos. Ela não é do tamanho do nosso sonho. O sonho é sempre maior. Na verdade, não podemos pensá-la concretamente como algo objetivo, que está ali e pode ser definitivamente alcançado. Ela não está nas coisas, no outro ou nos nossos projetos. Realisticamente, a felicidade não existe em si mesma. O que dela conhecemos são os momentos felizes que conseguimos viver.

O movimento da felicidade procede de dentro para fora da pessoa e a insere no contexto do sentido da vida. Dessa forma, entendo que a felicidade como o sentido da vida são buscas internas. Perdemos tempo em buscá-las fora de nós. O que está fora apenas acorda o que existe dentro. Nessa perspectiva, não encontramos a felicidade em si, mas razões para sermos felizes. Penso que estas razões estão em nós e à nossa volta, mas frequentemente as desperdiçamos ou nem as percebemos. Permanecemos na utopia de uma felicidade avassaladora. Os motivos que nos fazem felizes podem ser muito pequenos e, no entanto, preciosos. Talvez tenhamos que revitalizar a grandiosidade do sonho e encontrar os motivos simples que viabilizem felicidades.

Retalhos de prazer são bem vindos ao existir, mesmo que não nos bastem. Seria miséria erótica se nos bastassem. Contudo, valem enquanto prazer e expressão de busca. Na idealização de se viver apenas o amor extraordinário, perdem-se ocasiões de vivências importantes, ou mantém-se num estado de pobreza, de miséria amorosa. Não podemos é nos deter ante as máximas do “até que a morte os separe” ou que seja “pelo resto da vida”. Na verdade, “resto da vida” é tudo aquilo que se vive ao fim de cada etapa. Assim, atravessamos muitos “restos da vida”, porque ela se sucede em estágios que nascem desses finais.

Idealizamos muito porque ansiamos pelo maravilhoso, o melhor e o mais bonito. Sonho legítimo. Mas não podemos esquecer que o maravilhoso se esconde nas coisas simples. É o olhar interno que inventa o extraordinário e o descobre nas mais diversas circunstâncias. Um olhar, um afago, a roupa que o outro veste para agradar, a inteligência, a graça com que conduz à vida, o jeito próprio de amar, a flor que se abre sobre nossa janela, o sol que brilhou depois da chuva, tudo pode acordar o extraordinário em nós, quando estamos abertos aos gestos dos outros, aos movimentos da vida.

Estagnamos a relação se nos detivermos na ilusão da perfeita unidade, na utopia da completude, se não pudermos suportar e amar o outro como ele é: insuportável e maravilhoso. Diria que a relação amorosa é uma busca inquietante e que isso promove um “desassossego” que nos faz permanecer num devir constante. É no contexto de dores e alegrias que experienciamos o que há de mais denso emocional e sexualmente.

O difícil é admitirmos que a realidade amorosa tem essas duas faces. Qualquer parte dela negada, nos torna mais pobres experiencialmente. Porque assim é a vida, a existência, o sexo, a música, o universo, as pessoas em relação.

Fonte: jornal O Povo - 28/07/2013


(Des) humana violência

Postado em 01-07-2013

Não posso negar a minha preocupação com o que vem acontecendo em nosso país nas últimas manifestações. Como a grande maioria, sou também a favor delas, mas, sinceramente, o meu olhar desviou para o que mais me impressionou: a violência! Somos seres naturalmente agressivos. É como seres de cultura que nos controlamos. Em O Mal Estar na Civilização, Freud refere que está em todo ser humano tanto uma pulsão de vida, que é construtiva, como uma pulsão destrutiva. Ele considera que, se a esta nos entregarmos, poderemos ser capazes de destruir a própria civilização que a tanto custo construímos. Por aí podemos compreender, que é função da cultura, educar os cidadãos quanto ao controle de seus impulsos, o que tornará possível a construção do bem-estar.

É dever do estado proteger seus filhos. Tais medidas visam o ato cometido ou a sua evitação. Contudo, não depende só do estado o controle da violência. Faz-se necessário que outros tipos de ações e intervenções pessoais e sociais corram em paralelo, mobilizando nas pessoas a sua humanidade. Faz-se urgente uma mudança de atitude na internalidade de cada pessoa. O primeiro caminho de paz é pessoal, é construído por cada indivíduo em seu modo de estar no mundo. As normas, leis e limites postos são modos culturais de controle da pulsão destrutiva em nós.

É dever do estado proporcionar condições básicas de sobrevivência e fontes de satisfação que sejam adequadas ao cidadão e à coletividade. Mas é função também do cidadão de cuidar de si e de sua pulsão agressiva. Quando não é possível dar conta desse controle sozinho, é importante peajuda a família, amigos e profissionais.

Em nenhum momento questionei a importância dos movimentos sociais, pelo contrário, em muitos deles já estive presente, e com o fervor da multidão, meu espírito revolucionário também esquentou minha alma e meu corpo. Mas algo diferencia um dos outros no momento do discernimento do certo e errado, do adequado e inadequado, do necessário e supérfluo. E principalmente o que é meu, do outro e nosso! A agressividade não é uma força má que carregamos. Ela faz parte de nossa personalidade.

Contudo, pode e deve ser orientada para fins construtivos, autodefesa, força de trabalho, criação, coragem de ser. Embora seja parte integrante de nós mesmos, isso não nos autoriza a utilizá-la para a destruição do outro, da natureza, do bem-estar social. O respeito e a valorização das pessoas são valores fundamentais, são base da convivência sustentável entre os homens e as nações.

Na cultura narcisistas em que vivemos, onde “é proibido proibir”, produzem-se sujeitos intolerantes, exigentes de um prazer sem limites e incapazes de suportar a mínima frustração. “A perversidade não provém de uma perturbação psíquica e, sim, de uma fria racionalidade, combinada a uma incapacidade de considerar os outros como seres humanos”, diz Hirigoyen. A sociedade, a família, os adultos compõem o grande espelho onde os jovens refletem suas condutas.

A violência na juventude é apenas um reflexo da violência social, somado à força das pulsões adolescentes e ao vazio de valores que desnutre a dimensão humana. O “primata agressivo” que existe em nós traz em si a potencialidade do humano sensível, capaz de transformar a mais turva realidade. Precisamos urgentemente de projetos que humanizem o homem. Se não cuidarmos de estancar o projeto violento do modo de viver que se instalou, o futuro da humanidade se fragilizará sob nossos olhares inertes.

Fonte: O Povo - 01/07/13


Juventude da alma

Postado em 03-06-2013

Tenho conversado com pessoas mais velhas e sinceramente o tipo de conversa não tem me agradado. Muitos já não conseguem rir, alguns por não verem graça na vida e outros porque o botox não os permitem fazê-lo. Será que realmente pensam que estão disfarçando a idade com esse rosto plastificado? Nada contra os cuidados com a beleza, mas querer transformar-se em um jovem já é demais! A sociedade do espetáculo, com a qual convivemos, não chama a atenção para o brilho que vem de dentro das pessoas maduras. Enfoca, ao contrário, a falta de brilho da pele, os sinais da aparência modificada pelos anos vividos. Nessa sociedade, não aprendemos a ver beleza nas marcas que o tempo inscreve em nosso corpo. Por que essas marcas teriam de ser vistas como feias? Elas compõem nossa história. Hoje há meios e técnicas para o cuidado com a beleza externa, mesmo assim, não conseguimos ser mais felizes com isso.

“Vivemos numa civilização que nos concedeu mais tempo, mas detesta a passagem do tempo”, diz Lya Luft, no seu livro Perdas e Ganhos. Precisamos ter um olhar próprio, saber que é possível envelhecer com alegria, elegância, dignidade e vitalidade. Há idosos que participam desse modo preconceituoso com que a sociedade em geral vê a velhice. Envelhecer pode ser grande, se acreditarmos e acalentarmos projetos próprios de bem-estar. Estamos vivos e interessantes, enquanto somos interessados, criamos, elaboramos e nos apropriamos de nosso destino.

O tempo, em cada estágio da vida, tem seus encantos e desencantos. A velhice pode ser um tempo de encanto, serenidade, mistério, confiança, sedução, elegância diante dos fatos. Um tempo sem a urgência das relações, em que se pode viver mais apoiado na própria construção interna que foi feita.

Nossa sociedade tem algumas manias de grandeza, postula grandes felicidades, sugere megaprazeres, propõe uma juventude eterna, exige um corpo e performance impecáveis. São manias exigentes e alienantes que nos distanciam de nós mesmos e se deixam acompanhar de ilusões e frustrações. A felicidade, porém, é um sentimento simples que nasce de pequenas ocasiões, e é vivido dentro da gente. Há múltiplos prazeres disseminados nas esquinas da vida, que nos ajudariam a sentir felicidade, mas, se estamos engessados na ideia do grande prazer, deixamos de usufruir da festa simples da vida. Uma eterna juventude da alma, não do corpo, pode ser pensada, se nos mantivermos abertos para a vida, num contínuo intercâmbio, renovação e ressignificação de nossa presença no mundo.

Encorajamento, fortaleza e confiança perante a vida resultam de uma construção pessoal no transcorrer do existir. Começa cedo o trabalho por um envelhecimento com qualidade. Supõe o sentido do que fizemos a nós mesmos, aos outros e ao mundo. Amadurecer, envelhecer, deveria ser visto como coisa natural, do mesmo modo como vemos o crescer na infância e o adolescer na juventude. É a vida avançando no tempo.

Somos a nossa própria história a cada etapa em que vivemos. O que vamos experienciar mais adiante depende da história que escrevermos em nosso tempo. Por isso, o tempo é agora. É preciso amar o presente e o que foi construído, para que se possa aceitar como natural o que é natural, acolher bem o que não pode ser modificado e viver, do melhor modo possível, o que há para ser vivido. 

Fonte: Jornal O Povo - 02/06/2013


À flor da pele

Postado em 06-05-2013

Gostaria de começar esclarecendo que o artigo escrito por mim Homossexualidade: peso da diferença, publicado no domingo dia 7/4, não saiu com o texto original. O que foi anexado era de um artigo passado, que tinha como título Contingência do desejo. Solicitei que fosse feita a correção, justificando que o erro foi do jornal e publicando o artigo original por mim enviado, o que foi feito na segunda-feira seguinte. Quem não teve a oportunidade de ler o texto correto pode vê-lo na internet. Aproveito o momento para enviar, em meu nome e do jornal, nosso pedido de desculpas pelo ocorrido.

O fato me fez pensar sobre nossos erros e como nos sentimos diante dos erros dos outros, até que ponto sobre tolerantes e usamos o velho ditado “Ter razão ou ser feliz”. Para Amparo Caridade, a história dessas relações tem sua base na construção pessoal de cada indivíduo. Ela se inicia na família. É lá que se torna a confiança básica, o núcleo de segurança pessoal que possibilita uma identidade. A partir dela, da certeza do que somos, torna-se possível conviver com os outros. Nosso destino inevitável é ir em direção aos outros, mas sem perceber quem somos.

Cada um de nós tem o dever de empenhar-se na melhoria de si, da própria vida e da vida em seu redor, do mundo que se faz em seus dias, do outro com quem vive, da cultura que se constrói a partir do que se planta. Se cumpríssemos esse dever, já teríamos um grande resultado na convivência humana. Contudo, uma transformação maior exige mais de nós. Essa só será viável quando nos juntarmos, e não mais tivermos vergonha de querer bem ao outro. Por que tanto medo de peamor e perdão? Ser rejeitado, criticado, ignorado ou simplesmente amado, desejado e admirado. Vou pela segunda opção, mesmo que a resposta seja não, já houve um sim de uma parte, e isso é equilíbrio.

“O inferno são os outros” dizia Sartre, mas o inferno pode ser também sua ausência, a falta de desafios que ele provoca, a impossibilidade de crescimento e enriquecimento pessoal quando ele nos falta. Pode ser também nossa ilusão de uma liberdade irrestrita, de uma insuficiência tola que nos faz prescindas parcerias da vida. Pode ser os arranhões que fazemos aos relacionamentos, o sentimento sem expressão, a cortina de ferro entre os corações. O espetáculo do mundo nos distrai, sobretudo, de atentarmos para a importância que o outro tem em nossa existência.

Na contraface disso tudo, sinto uma nova preocupação masculina por essas questões em nosso consultório, onde os homens estão tentando desenvolver sua capacidade de amar, de serem ternos, amigos e partilhadores. Entendendo que isso em nada pode ameaçar sua masculinidade. Pelo contrário, isso faz deles espécimes raros, que podem reunir força, coragem, beleza e expansividade do ser. A sociedade muito se beneficiará, com novos modelos de convivência, se houver o resgate do humano, do sensível nos homens. Outro dia um paciente cantarolou com muita emoção a canção do Zeca Balero, “Ando tão à flor da pele que qualquer beijo de novela me faz chorar”... e choramos juntos!

Zenilce Vieira Bruno

zenilcebruno@uol.com.br

Psicóloga, sexóloga e pedagoga

Fonte: Jornal O Povo - 05/05/2013


Homossexualidade: o peso da diferença

Postado em 08-04-2013

Fui convidada a proferir uma palestra no Congresso de Geriatria sobre as relações homoafetivas na terceira idade. Quando comecei a prepará-la pensei, será que sabemos o que é a homossexualidade? Pois em pleno século XXI, percebo que a mesma ainda tem sido vista, especialmente entre leigos, como um estigma, para alguns uma doença ou, o pior, uma demonstração de sem vergonhice propositadamente cometida. O aspecto mais básico do problema é o educacional, pois a sexualidade ainda é passada como algo sujo, ruim e vergonhoso, especialmente no que diz respeito às suas manifestações entre as minorias sexuais. Claro que se passarmos a uma criança a ideia de ser o homoerotismo uma distorção, será muito difícil que mais tarde ela possa vir a ter uma visão menos preconceituosa a respeito.

Crescer é basicamente uma questão de moldagem, de ajuste a uma sociedade. É um processo vital, pois nenhum de nós poderia sobreviver por muito tempo sem ser membro de algum grupamento social. Se os estereótipos culturais dessa sociedade forem demasiadamente rígidos, eles impedem o crescimento dos seus membros, instalando-se a estagnação. Observa-se que tal rigidez pode mutilar a mente dos indivíduos de forma tão grave e permanente, como o costume do atar os pés mutilava antigas gerações de mulheres chinesas. No entanto, se os estereótipos forem amorfos demais, a sociedade fracassa em prover seus membros dos meios necessários para a cooperação, e em pouco tempo se desintegra. A tendência dos estereótipos culturais em resistir à mudança é essencial para a manutenção da sociedade, mas a flexibilidade é fundamental para a saúde, tanto da sociedade quanto de seus membros, segundo Money.

É essa flexibilidade que oferece a oportunidade de se atingir o “ponto-chave” de compreensão e postura diante de novos conceitos e acontecimentos. A questão da escolha afetiva é determinada e aceita socialmente, a partir da heterossexualidade. A mulher deve escolher o homem, o homem deve escolher a mulher, e essa escolha deve dar prazer, ser satisfatória e coerente. E é justamente aí que reside à incoerência, pois a escolha de parceria afetiva é individual e pessoal. Neste sentido, a homossexualidade se caracteriza pela parceria afetiva com o mesmo sexo, isto é, escolha de objeto amoroso e não de vida. A confusão entre escolha de objeto amoroso e escolha de vida, fica evidenciada no atendimento de pacientes cujo sofrimento emocional advém da dificuldade em conciliar a sua orientação sexual com o contexto social. A resolução quanto à própria sexualidade reside no fato de perceber-se capaz de seduzir, ser seduzido, e, principalmente, poder discriminar nessas situações com quem se deseja um envolvimento maior pelo nível de satisfação e prazer que essa escolha amorosa possa proporcionar. Sob esta ótica, a homossexualidade pode ser considerada uma variante normal do comportamento sexual.

Epíteto (século I d.C.) afirma: “Não são as coisas em si que nos perturbam e sim a opinião que temos delas”. Neste caso, o profissional que categoriza, classifica ou rotula por dificuldade de lidar com a diferença, não passa de reprodutor de ideologias preconceituosas. As diferenças são inerentes à condição humana. A organização social que determina essas diferenças em categorias valorativas visa, de certa forma, encontrar justificativas para tornar mais próximos os “desiguais”. Sobre os aspectos apontados resta pensar se, ante a perspectiva de se criar um padrão que defina o porquê de uma determinada escolha de objeto amoroso, não estaríamos perdendo de vista características que fazem parte da “natureza humana”? E, neste sentido, não estaríamos também sendo condescendentes com certos abusos emocionais cometidos em nome da heterossexualidade? Somos ao mesmo tempo semelhantes e diferentes de todos os demais, em nossa indivisibilidade. Somos, em cada momento, únicos e universais. Transformar uma sociedade é nos transformarmos. E transformar, também, a sociedade que está dentro de nós.

Zenilce Vieira Bruno

zenilcebruno@uol.com.br

Psicóloga, sexóloga e pedagoga

Fonte: jornal O Povo (08/04/2013)


Contingência do desejo

Postado em 11-03-2013

É paradoxal a ideia de escrever sobre o desejo, porque dele é dito que é algo sobre o qual não se sabe. Melhor dizendo, não sabemos o que desejamos. Mesmo assim, são muitas as falas sobre o tema e não se esgotam as peripécias linguísticas para esboçar essa face humana. Escrevemos e falamos sobre algo obscuro, sobre essa força intensa que move o espírito humano. A ânsia de escrever sobre isso corresponde à vontade de escrutinar em nós próprios os caminhos do que ainda não alcançamos, não experienciamos, numa fome de saber e sentir o que se esconde mais além do ponto até então conhecido, vivido, experimentado. Falamos da contingência do desejo. E é desse desejo que surgimos. Não somos filhos do necessário, mas do desejo.

Sob o signo do maravilhamento, nós enxergamos belos, grandes, fantásticos mesmo. Escutamos o discurso das estrelas, fazemos o gesto cósmico de apanhar a lua para oferecê-la ao ser amado como quem oferta algo muito além de si mesmo. Envelhecemos quando não somos mais capazes desses gestos, razão porque alguns adultos irritam-se com a mente enluarada dos adolescentes. Ante o universo enlouquecido de emoções desencadeadas, quando duas pessoas se buscam, se atraem, se tocam, se gostam, somos tentados a exercer controles. Interrogamo-nos quais os limites do permitido e do proibido nesse avanço de toques e descobertas inevitáveis. É preciso não impeos gestos espontâneos do desenvolvimento, porque o importante não é tanto o que fazemos à pessoa, mas o que não lhe retiramos. O acerto em nós estará nessa capacidade de acompanhar o fenômeno da vida e evitar interferências desnecessárias.

Realizar o desejo implica tornar realidade aquilo que está na fantasia. Mas o fantástico é sempre muito maior que a realidade. O que o desejo humano deseja é possuir o desejo do outro, é ser desejado ou amado pelo outro, é ser reconhecido em seu valor humano. Por isso, quando se perde um amor, o que se perde mesmo é o desejo do outro por nós. Por isso também é tão intensa a ferida narcísica que a perda provoca. Desejamos porque não nos bastamos, porque uma agonia íntima de ser só quer alívio. Acuados, buscamos esse outro, um sujeito que também não se contém em sua inquietação desejante. É interminável o universo de reflexões que se pode tecer acerca do desejo, como intermináveis são suas expressões, como ilimitados são os objetos que tentam satisfazê-lo, como infinita é a ânsia do outro que ele provoca.

Fascina-me transpor o real para tentar encontrar dimensões mais reveladoras do humano. Talvez seja pouco útil meu discurso para quem busque apenas aplicações de ordem prática. Mas penso como Bachelar: “O homem é uma criação do desejo, não uma criação do necessário”. Gosto da emoção de cascavilhar a coisa simples, complexa e fantástica que é a descoberta do sexo e do amor como alquimia, algo misturado à vida, magia da sensação que dormita a nossa pele, no aguardo do nosso próprio acordar sensório-existencial. Fascina-me dizer que a sexualidade que se ensaia no adolescente, ou esta que vivemos como adulto, será plena, e plena em sua metáfora suprema: a sedução do outro, o encontro com seu mistério, sem jamais desvendá-lo. 

Zenilce Vieira Bruno

zenilcebruno@uol.com.br 

Psicóloga, sexóloga e pedagoga


Que mulher é essa?

Postado em 14-02-2013

Nas últimas semanas o tráfico de mulheres tem sido alvo de debate, provavelmente por ser tema de uma novela que se encontra no ar. Para alguns parece ser algo distante, para outros, mera ficção. O tema é tão hediondo que faltam palavras para expressar a indignação que o tipo de crime suscita. Uma sensação de mal-estar interior cresce ao longo da leitura dessas reportagens. É uma indignação visceral, um sentimento de desamparo no sentido real do termo, abandono ao mal, violência sem qualificação a que a sociedade assiste inquieta e temerosa.

Ciente da responsabilidade do meu papel de formadora de opinião, pretendo alertar que corpos femininos estão se tornando coisas, mercadorias, objetos banais. Negócio lucrativo como outro qualquer. Será essa uma questão nova na bandidagem internacional? Sabemos que a questão é antiga e que continuamos simplesmente assistindo ao horror infligido pelos criminosos. Estes e outros crimes fazem-me pensar o quanto a humanidade tem perdido em sensibilidade, respeito e dignidade.

É a grande miséria econômica que torna essas mulheres vulneráveis ao “canto da sereia” convocando para “trabalhos no Exterior”, não imaginando a escravidão que lhes espera. É a carência ou a ganância que convoca corpos a se venderem para a soberania do capital, invertendo a importância que o ser humano deve a si mesmo.

A banalização da vida e da pessoa conduz a esse tipo de indústria, fundada na imoralidade e na impunidade. É lucro hediondo sobre o sonho dessas mulheres de conquistarem uma vida melhor. É lucro hediondo sobre o uso e abuso dos corpos, como se fossem corpos sem face, sem nome, sem identidade, sem pátria.

Vendem-se corpos também na TV, no cinema, nos outdoors, nas esquinas da vida. A profissão de modelo, na qual garotas submetem-se a uma modelagem padronizada e tirânica de seus corpos, não é também uma forma de escravidão feminina? Até quando muitas das mulheres ainda serão simplesmente descritas como bonitas, feias, gostosas, gordas, magras, sedutoras, frias, fáceis, difíceis, velhas, jovens, enfim, de um modo estereotipado, discriminativo, preconceituoso, injusto e degradante de nomear a mulher, como se a atribuição cabível fosse de que ela é um objeto sexual, um ser de uso doméstico destituída de valores como pessoa?

Que seja dito que somos pessoas corajosas, lutadoras, amáveis, ativas, empreendedoras, cultas, capazes, sensíveis ou não, mas que sejam encontradas outras formas de dizer sobre a mulher que somos. Crescemos, saímos do lugar das sombras que fomos mantidas por tanto tempo.

Que a dor não seja só feminina e o prazer não seja só masculino. Nosso apelo para o ano que iniciou é que ele seja mais humanizado por ações mais éticas, com justiça e solidariedade em relação a essas questões e muitas outras. E principalmente, que nós mulheres valorizemos o nosso corpo, nossa dignidade e nossa alma. Não podemos mais ir para um mercado em que nos colocamos como algo a ser desejado e adquirido. Temos muitos valores e bem mais reais do que apenas um corpo bonito!

Zenilce Vieira Bruno

zenilcebruno@uol.com.br

Psicóloga, sexóloga e pedagoga


Adolescência hoje

Postado em 17-12-2012

Acompanhei a campanha eleitoral e fiquei surpresa com tantos interessados em defender os adolescentes. Empolgada com as promessas, escrevo para colaborar e quem sabe esclarecer alguns devaneios.

É imprescindível que antes de elaborar qualquer projeto se conheça quem é e do que necessita o adolescente. A adolescência se impõe pelo seu contingente significativo, pelas suas expressões peculiares (e muitas vezes dramáticas de conduta) e pela sua influência no mercado de consumo. Esses aspectos e outros, que vêm sendo pesquisados, têm permitido a sua inscrição no arcabouço teórico do desenvolvimento, e, inclusive, na criação de um novo olhar profissional para o adolescente.

A literatura etnológica tem revelado que em muitas culturas existem ritos de iniciação com definição explícita de um estatuto que tem por fim converter o jovem em adulto socializado e bem adaptado à sua sociedade. Esses ritos contêm uma simbologia de alcance social, pois, ao promover a integração dos jovens às regras sociais e políticas de sua cultura, asseguram seu reconhecimento como cidadão pelos outros membros da sociedade.

Essas observações contrastam com o que se vê na sociedade ocidental, onde a passagem à idade adulta não está institucionalizada. Os poucos ritos existentes implicam em aspectos parciais do indivíduo, prescrevendo que a transição entre infância e idade adulta se mantém em aberto. Os adolescentes têm grande dificuldade em conquistar o seu estatuto social e exercer a cidadania, pois carregam o peso dos próprios conflitos e das instabilidades da sociedade contemporânea, que tem produzido, na forma de iatrogenia, uma assincronia acentuada entre as idades de maturidade biológica, psicológica e social.

As estatísticas de mortalidade apontam que eles estão morrendo em progressão crescente por eventos violentos. A ciência e a tecnologia muito realizaram, mas não têm contemplado este grupo de forma preservadora. Por exemplo, as leis prescrevem velocidades menores nas rodovias e ruas das cidades e a tecnologia joga no mercado carros cada vez mais potentes e velozes. Os meios de comunicação acenam a prioridade para um mundo virtual inalcançável, e os adolescentes, vítimas do imaginário, buscam as alucinações da ilusão, perdendo a referência da realidade. Seriam estes óbitos por violência os resultados funestos dos rituais de passagem que a sociedade contemporânea tem dado como provas de iniciação aos jovens?

Sem limites etários definidos, sem adultos de referência, sem lugar, sem tempo, a adolescência de hoje anda às soltas, construindo uma cultura marginal. Nos parques e shoppings, com skates, dialeto próprio, roupagem, enfeites e aparência típica, eles vivem à parte. Vistos muitas vezes como ameaças sociais, são enfrentados pela força policial.

Resistindo a pressões escolares, são punidos com avaliações tendenciosas e reprovações. Para os sobreviventes bem nascidos e dotados, resta o vestibular que penaliza, humilha e adia a realização intelectual e pessoal. É a violência sutil fantasiada de boas intenções. Sem tempo e sem espaço, o adolescente continua nômade do imaginário, sem direito de ser iniciado na realidade.



Zenilce Vieira Bruno

zenilcebruno@uol.com.br

Psicóloga, sexóloga e pedagoga


Essa tal solidão

Postado em 19-11-2012

Em plena explosão das redes sociais e das facilidades dos contatos físicos, emocionais e sociais, o que mais escuto é o lamento de que seu mal é a solidão. Que ficar só dói, fere, humilha, incomoda, abate a autoestima. Afinal ter alguém com quem partilhar a vida é, inegavelmente, muito bom. Só que, existem algumas parcerias em que se fica verdadeiramente solitário, sem trocas, sem comunhão, e onde se instala uma “solidão a dois”. Há parceiros que apenas emprestam seus corpos a um gozo tão econômico de afeto, que nem deixa saudades para um próximo contato. Há ainda outros pares que se maltratam, desrespeitam-se, e até se destroem. Pouco se lembra de que é possível partilhar algo de si, da vida, de modo muito agradável, simplesmente com uma pessoa amiga. É preciso desfazer o mito de que a solidão só se quebra tendo uma parceria dita “amorosa”.

Na verdade o sentimento de solidão fica intolerável quando o outro não nos alcança, não quer, não pode nos ouvir, ou não entende o que queremos dizer, seja de dor ou de alegria. Ou quando nós mesmos não sabemos fazer isso, não sabemos nos escutar, acolher-nos, considerar-nos. Somos uma cultura sem esse exercício de partilha e escuta.

Estudos atuais vem ressignificando à solidão, ao apontar as dimensões positivas que a experiência pode guardar. Não se trata necessariamente de uma situação desesperada e sofrida. “A solidão não é um tempo de abandono”, diz Phillis Hobe, “É, ou pode ser um tempo de ser ou tornar-se”. Pode ser, portanto, um lugar de confronto e de conforto, de diagnóstico e de cura. Os nossos acontecimentos interiores merecem todo o nosso afeto. Neste sentido também, a solidão torna-se uma aventura e até serve para nos lembrar de nosso destino relacional, nossa vontade de buscar o outro. Isso é diferente do isolamento em que nos colocamos, às vezes, de modo ofensivo.

Para Amparo Caridade, a solidão negativa é a marca do divórcio entre o indivíduo e sua própria existência. Enquanto expressão de insuficiência, ela emerge em meio às frustrações por falta de satisfação nos diversos campos da vida privada e coletiva. A capacidade de o indivíduo ficar só é um dos maiores sinais de amadurecimento emocional. Ter a capacidade de estar sozinho, refletir e deliberar sozinho, é inevitável e necessário para nos mantermos como seres singulares, como sujeitos morais, e em última instância como sujeitos políticos.

Solidão faz mal? Não. Se dela fizermos o caminho de crescimento e singularidade pessoal. Se for vista como condição humana, não como condenação, pode ser nosso lugar de construção e amadurecimento. Existencialmente falando, a questão vai mais além. Na verdade, nem temos como escapar da solidão, se nos permitirmos amadurecer, se nos permitirmos experienciar a falta de respostas às nossas indagações e aos nossos anseios. Ficamos assim, muitas vezes de mãos vazias, na solidão da falta de respostas porque, em última análise, sobretudo para o essencial, estamos sós. O essencial tem uma fundura própria, que só se alcança numa proximidade muito especial com o próprio eu. Isso se alcança na solidão. Na bendita solidão.

 

Zenilce Vieira Bruno

zenilcebruno@uol.com.br

Psicóloga, sexóloga e pedagoga


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