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PRINCIPAL * EDUCAÇÃO SEXUAL

 

FotoEducação sexual com  Zenilce Bruno

Zenilce Vieira Bruno é Pedagoga e Orientadora Educacional, Psicóloga Clínica e Psicodramatista, Especialista em Adolescência, Psicoterapeuta de Adolescente, Casal e Família, Especialista em Sexologia, Terapeuta Sexual e Educadora Sexual, Formação em Neurolinguística, Membro da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana, Professora do Curso de Especialização em Adolescência da UFC, Professora do Curso de Especialização em Psicologia da Adolescência da UNIFOR, Consultora, Colaboradora e Colunista dos Meios de Comunicação sobre Adolescência e Sexualidade Humana.

zenilcebruno@uol.com.br

Um olhar sobre as diferenças

Postado em 08-07-2014

De que diferença se poderá falar, quando se reflete sobre um tema como esse? Talvez da diferença que é vista pelo social em sua intolerância pelos menos iguais. Na realidade, enquanto seres humanos, somos todos iguais e diferentes. Somos na verdade uma cultura intolerante às diferenças, sejam elas relativas à raça, sexo, cor, nível social ou deficiência. Somos avessos às minorias. Gostamos de ser massa. Somos também uma sociedade do espetacular, cujo maior valor é o parecer. Valemos pelo que parecemos.

Neste contexto, o rosto e o corpo valem como aparência, e valem se estiverem enquadrados no modelo de beleza que é vendido: o de pessoas jovens, magras, expressivas, bonitas e ricas. Nesse tipo de sociedade, aprende-se a banalizar a vida, os valores, os outros e até o próprio mal. Esse contexto de intolerâncias e banalizações, torna-se um terreno fértil para a prática da violência, já que o outro nada significa, que ele é visto como um estranho, jamais um parceiro, um aliado. A intolerância tem sido uma marca acentuada do nosso tempo, e é um caminho de violência e desrespeito ao outro.

Desde tempos imemoriais, desrespeitos à vida se fazem presente no mundo, e a humanidade em sua trajetória não foi muito diferente da atual. A história tem sido um percurso onde o homem sempre fez suas travessuras perversas, chegando a momentos estarrecedores de crueldade e horror. “Com a história dos povos não se aprendem lições de ética”, diz Oliva, lembrando as inquietações históricas do buscar o bem e encontrar a norma. Mas, do mesmo modo que é necessário que se conheça a fundo as mazelas da sociedade em que se vive, também é preciso nela encontrar o que é digno de elogio. Não apenas remexer os problemas que minam a dignidade humana, a coesão social, mas procurar também as manifestações da virtude que o cenário de destruições contemporâneas abriga. Talvez isso pareça, no contexto atual, de um otimismo ingênuo, mas a história foi escrita assim, entre abismos e esperanças. O psiquismo humano é assim também construído. Das cinzas de nossas experiências angustiantes, surgem crescimentos imprevisíveis.

Nossa saída para a construção de um futuro viável será a de uma educação para a compreensão, para a solidariedade e a moral da humanidade. Um caminho de paz nas relações terá de se pautar por uma ética da tolerância, possibilitadora do respeito aos outros, em suas mínimas ou grandes diferenças. Tolerar é uma forma de amar. O outro como tudo na vida, é insuportável e maravilhoso. Por vezes sua diferença nos fascina, outras vezes nos irrita. Uma ideologia permissiva tem difundido a ideia de uma liberdade irrestrita, de uma independência inconsequente, de uma banalização da alteridade, que desemboca numa falta de ética relacional. Assim, quanto mais permissivos, mais intolerantes.

As relações humanas sustentáveis terão de ser fundadas no exercício afetuoso da tolerância. Uma cultura do sentimento pode ser a via de acesso a um tempo mais humano. No mais profundo de cada um de nós, a cultura do sentimento pode nutrir a felicidade que é possível.

Fonte: jornal O Povo - 06/07/2014


Sexualidade: uma dimensão que não tem idade

Postado em 02-06-2014

É como um traço (e)terno na finitude que a sexualidade se faz presente na experiência humana, desde o nascimento até sua morte. Uma dimensão da existência que não tem idade, que está presente em todo o viver. A cada etapa do desenvolvimento pessoal, correspondem formas próprias de expressão, porque somos seres em contínua transformação. O próprio corpo não é estático e atua sempre como um processo. O corpo é histórico, é como um arquivo, seja de experiências positivas, de registros que nele se inscrevem pela vida, seja de traumas. Por isso a sexualidade deve ser compreendida na temporalidade, no fazer-se sempre que caracteriza o humano.

A sexualidade da criança revela-se em seu contexto infantil, na experiência de um prazer sem consciência do sentido, mas fazendo um registro profundo de sensações que a memória do corpo não esquece. Isso alicerça uma espécie de certeza de “algo bom”, ou de “algo negativo”, que se cola à pele e a torna responsiva ou não ao toque, ao afago, à carícia. Essas impressões primeiras fazem eco na forma como vivemos a sexualidade adulta. Já para o adolescente, a sexualidade é descoberta de grandes sensações e emoções. Uma sexualidade que, acima de tudo, atende aos gritos do corpo que se encontra em plena expansão hormonal. Torna-se exigência biológica de troca, de fusão, de interação com o outro, com quem possa partilhar sensações e emoções. Na adolescência, também o sexo é vivido como afirmação do tornar-se homem e tornar-se mulher.

O amadurecer pode trazer limitações físicas, mas não deve limitar a qualidade de vida, pois se o espírito for estimulado, florescerá continuamente, refletindo-se na expressividade corporal. A sexualidade humana, em qualquer idade, terá de ser sempre uma invenção do espírito, um desafio à própria finitude. Sem essa dimensão, ela pode perder-se na mesmice, na exigência da performance e não encontra sua vocação maior, ou seja, a descoberta de algo mais, do mais além de nós mesmos. Essa dimensão será possibilitada pelo afeto, caminho que descobrimos de tornar o outro especial.

A sexualidade na terceira idade pode ter uma grife da sabedoria, que não deve deixar-se perturbar por possíveis entraves corporais em seu natural processo de amadurecimento. “Tudo que for flexível e fluente tende a crescer, tudo o que for rígido e bloqueado definha e morre”, pensa Tao Te Ching. Se conquistarmos tal flexibilidade, estaremos aptos a viver uma idade madura bonita, com características de sabedoria, serenidade, paz do dever cumprido e alegria de manter-se em alta estima.

À medida que amadurecemos compreendemos que o sexo não é só resposta do corpo, mas também do espírito, da criatividade humana. Somos uma cultura que supervaloriza o desempenho sexual. Uma espécie de sexo triunfal, afirmação mais que encontro. Teremos que compreender, sim, que a relação amorosa e sexual se funda no desempenho, como base, mas sabendo-se que isso não é tudo. É apenas a base. A construção maior da experiência sexual se dará pela inventividade dos parceiros, pela troca de sensações, que será tanto maior, quanto maior for a partilha da vida como um todo.

Fonte: jornal O Povo - 01/06/2014


Corpo e metáfora

Postado em 06-05-2014

Durante os últimos dias fui questionada sobre a pesquisa em relação ao estupro. Confesso que não fiquei admirada com os resultados, afinal vivemos em um país machista e seria esperado aquele tipo de comentário, principalmente nas redes sociais. Gostaria de esclarecer um equívoco em relação à estimulação da violência devido à vestimenta feminina, é importante deixar claro que os estupros não acontecem porque os homens encontram mulheres com roupas sexy no meio da rua, na realidade são pessoas doentes que atacam quem estiver disponível, na sua maioria crianças e dentro de casa.

Tenho me preocupado por acreditar que estimula a desvalorização da mulher, as expressões degradantes, veiculadas pela pobreza cultural de certas “músicas” atuais, que são verdadeiras tapas na nossa inteligência. Elas doem no tímpano, no corpo e no espírito. Doem porque veiculam, para além da enorme mediocridade enquanto músicas, a tentativa de naturalizar e tornar “graciosos” o uso e o abuso do corpo do outro para um gozo individualista, duvidoso, para não dizer perverso. A perversão se caracteriza por um “desejo de ferir, magoar, ser cruel, degradar, humilhar alguém”, diz R. Stoller. Nessas veiculações aparentemente inofensivas, implantam-se ideias ofensivas.

Antigamente o Marquês de Sade era para ser lido, mas hoje os crimes sádicos são verdadeiros, acontecem em cada esquina de nossas vidas e assumem ares de coisa natural. É a perversão pretendendo ser normal. Confesso que me causa perplexidade assistir mulheres em vídeos cantando e dançando funks de uma forma desrespeitosa contra elas mesmas. Preocupo-me mais ainda perceber que crianças participam de programas de TV, dançando coreografias vulgares, transformando com isso, um gesto cultural que é de punição, em graciosa perversão. Que consequências isso trará? O que acontecerá com a autoestima dessas pessoas amanhã? Onde estão os responsáveis pelo futuro destas crianças?

“Um tapinha não dói... ¨”, “Vou te jogar na cama e te dar muita pressão... cachorras”, “Tô doidinha para te dar”, podem ser estímulos à reedição de antigas estratégias de opressão da mulher. Do tapinha não dói pode-se chegar à violência, a espancamentos, quem sabe, ditos normais, exigência de pulsões rebeldes e desenfreadas que deverão ser satisfeitas a qualquer preço, na cultura do “é proibido proibir”. Aí vale tudo, a desconsideração ao outro, o uso de seu corpo, a violência. Tudo conduz a incapacidade de admirar a pessoa, posto que ela é tornada coisa, é transformada em objeto de uso.

Talvez eu tenha os tímpanos ”mal educados” para a contemporaneidade, mas fico à procura de qualquer sinal de beleza nessas músicas e não consigo visualizar. Talvez porque, sou daquele tempo em que a gente “estava à toa na vida... vendo a banda passar cantando coisas de amor”. Era bonito ver Chico Buarque revelando sua alma de poeta. Perdão aos entendidos que veem na música funk um entrelace do morro com o asfalto; enquanto projeto de diluir as fronteiras existentes, é louvável. Mas, porque não podemos diluir essas fronteiras intercambiando nossas melhores porções? De certo, há beleza e qualidade também na música do morro, que pode enriquecer nossa cultura asfáltica.

Fonte: jonal O Povo - 04/05/2014


Entre o belo e o banal

Postado em 21-03-2014

Na arte de todos os tempos, sobretudo na escultura e na pintura, o corpo nu foi alvo de grandes inspirações artísticas, que legaram à humanidade um patrimônio de belas expressões plásticas. Neste Carnaval, resolvi assistir alguns desfiles de escolas de samba, o que gosto muito, devido ao meu animado passado carnavalesco! E foi a partir dai que observei um declarado processo de dessensibilização em relação ao sentido artístico do nu. Nos dias atuais, marcados pela eficiência, rapidez e consumo, o nu tornou-se imagem midiática, mais que obra de arte. É recurso de marketing, mais que expressão artística, mais que a beleza da escultura ou pintura que ambienta nossas casas, que seduz nossas emoções. O corpo em sua nudez foi perdendo suas metáforas, foi sendo destituído historicamente desse sentido.

No processo de globalização, a sexualidade foi sendo enquadrada em categorias econômicas e passou-se a explorar o nu para fins comerciais. Hoje, o nu feminino, enquadrado num estereótipo de beleza, vende muito. Vende de tudo e vendendo, vende-se. Assim, entre o artístico e as imagens desnudadas pela mídia, há significativas diferenças. Na arte, o nu é buscado, encontrado, contemplado, quando isso delicia o deleite do imaginário. Mas na propaganda o nu impõe-se, invadindo ruas, revistas, internet, salas de visita como se fosse a ultima palavra, o que se impõe como verdade. Diante dessas imagens o sujeito é excluído, não tem como contradizê-la, ajeitá-la, torná-la mais sútil. A imagem impõe-se sem enigma, é seu próprio fim, não deixa margem à divagação criativa. Neste sentido, o observador consome passivamente, o que lhe é posto no cotidiano. Isso o convoca à “infelicidade”, quando não dispõe de um corpo naquele padrão, para sua satisfação.

Não me considero uma pessoa conservadora e moralista, mas confesso que a nudez exagerada na mídia me incomodou, cheguei a pensar se não seria inveja devido os meus 50 anos, mas meu companheiro carinhosamente comentou que eu era mais bela de que todas, o que imediatamente me aquietou. Romantismo à parte, penso que no tempo em que era “proibido permitir”, o corpo velado, coberto, intocado, era a musa inspiradora de sonhos, devaneios, esculturas, pinturas, poemas. Hoje, é “proibido proibir” e o corpo revelado, exposto, já não provoca emoções em sua nudez. Os radicalismos, os excessos, são sempre geradores de desconfortos. Será que a agressividade, a violência que se instala na sociedade, o endurecimento das pessoas, a frieza com que se maltrata o corpo do outro, não são também resultantes desse vazio do êxtase, que só a beleza sutil do gozo e da descoberta, prometem? Não estamos nós carentes de oásis que sejam mais emocionantes?

Como terapeuta sexual, percebo o aumento de pessoas com disfunção sexual, principalmente a inapetência sexual e a disfunção erétil. Como podemos explicar isso, se a cada dia a liberação sexual aumenta? Saímos constantemente da possibilidade do sonho, do imaginário, da fantasia, para a ordem real que muitas vezes associa grosseiramente o sexual com o banal. “Erótico é a alma”, dizia Adélia Prada, porque a sensualidade é uma espécie de teatro imaginário, onde a sutileza é mais eficiente que a imposição. O corpo clama por mais respeito nas várias propagandas. Não sou contra a mídia, pelo contrário, até faço parte dela, mas não podemos permitir o império da banalização, a coisificação do sujeito. Não seria esse o momento adequado para pensarmos que tipo de prazer queremos sentir?


Quando o amor acontece

Postado em 10-02-2014

Outro dia escutei uma música de João Bosco que dizia... “O amor quando acontece à gente logo esquece que sofreu um dia”, e é verdade, como mudamos nossa forma pessimista de ver o amor assim que nos apaixonamos novamente, e já não lembramos que um dia proclamamos o fim para este sentimento. Por que isso acontece? Porque nascemos para amar e sermos felizes, simples não? Nem sempre, porque também aprendemos a complicar e encher-nos de sentimentos negativos contra nós mesmos e contra os outros, difícil não?

Tenho observado que os amores vão aumentando de intensidade na medida em que amadurecemos, parece que o acúmulo de experiências faz com que desejemos algo que nunca tivemos e quando acontece esse novo, temos a doce e bela ilusão que agora é especial e que esta sensação será para sempre. É neste momento que é possível ampliar nossa capacidade prazerosa e tornar o viver um ato de prazer, não importando em qual fase da vida estejamos. Ora estamos extasiados ante as fantásticas possibilidades da emoção, ora ficamos acuados ante a própria incompletude e a inevitável angústia com que a temporalidade nos confronta. A felicidade sexual é uma construção. Somos responsáveis por cada instante, por cada “agora” de que dispomos para tornar a vida preciosa, especial, significativa. Ninguém pode fazê-lo por nós. Temos todos responsabilidade sobre nossa própria felicidade, não importa em que idade, circunstância ou lugar estejamos. Não podemos aguardar que nos façam felizes.

Sou uma incansável defensora do amor e em cada tentativa enxergo a possibilidade de um relacionamento mais maduro, que vai dando-nos a certeza íntima do ser que interiormente somos e, assim, podemos nos relacionar com o outro. Somente aquele que possui o bastante para si mesmo pode se oferecer generosamente ao outro. Isso elimina de uma vez toda dependência patológica e toda confusão misturada com o amor. Então, a sexualidade eclode junto com as imagens profundas, com as vivências imateriais e com a liberdade das relações inteiras e globais. Não restam dúvidas de que o encontro amoroso, para ser verdadeiro, remete o ser humano ao outro na tentativa, porém, de uma revelação da própria alma.

Acredito que a sexualidade para ser considerada adulta, terá de ir amadurecendo na direção da partilha cada vez mais intensa, na reciprocidade de entregas possibilitadoras da experiência do individuo de ser ele mesmo, na capacidade de perder-se no outro para reencontrar-se depois acrescido, somado. Um tempo em que se descobre a necessidade de democratizar o prazer e as emoções, em que cada um cuida da própria felicidade, mas presta atenção à felicidade do outro, porque agora, ser feliz é também saber que o outro está feliz nessa parceria.

Quando as pessoas de fato estão adultas, maduras, não apenas se colocam à disposição, ao serviço do prazer do outro de um modo submisso, mas buscam e querem para si uma partilha generosa e igualitária. Partilha do corpo e do espírito de ambos, democraticamente, porque segundo A. Távola “O amor é um exercício de felicidade, não de poder”.


Analfabetismo afetivo

Postado em 17-01-2014

Este é o primeiro artigo depois do lançamento do meu livro Patrimônio Afetivo e eu não posso deixar de registrar o meu agradecimento aos leitores que estiveram presente e aos que mesmo de longe enviaram sua energia positiva. Iniciamos um novo ano, geralmente findando e iniciando novos projetos. Fiquei surpresa e feliz quando verifiquei que entre os planos mais listados para 2014, estava o de viver mais e profundamente as relações amorosas.

O analfabetismo afetivo em que vivemos, deixa-nos longe de saber como viver na intimidade com um parceiro. A vida na intimidade se apresenta como o maior desafio do mundo contemporâneo. Somos triunfantes do mundo da técnica, mas aprendizes do mundo dos afetos. Dependemos afetivamente dos outros, como do ar, da água, da luz. O amor é antes de tudo, um sentimento de dependência afetiva e um imperativo em nossa existência. O amor é também a constatação de nossa fraqueza compartilhada. Nossas decisões já não passam por nosso corpo apenas, mas pelo corpo do outro, o que gera sensação de fraqueza e vontade de controlá-lo. Por medo de perder nossa segurança, terminamos por anular sua singularidade, convertendo a vivência amorosa num campo de batalha. Não se pode ser arrogante, mas também não se pode pagar o preço da própria singularidade pelo acesso ao carinho de que necessitamos. De solidão e dependência se nutre a verdade da harmonia frágil de nossas relações amorosas. Um gesto, uma carícia pode modificar a dureza dessa realidade.

O diálogo e a amizade têm o poder de misturar o tecido social, com rara beleza estética. Encanta-me a possibilidade da amizade poder transformar a paisagem relacional da humanidade. Podemos avançar em direção a climas afetivos, onde predomine a carícia social, porque é só a partir da ternura, que afirmamos nossa condição de cidadãos desarmados, aptos para amar. Com sentido nas relações de gêneros, homens e mulheres podem usufruir das aproximações, longe da aversão do endurecimento masculino, e sem as intolerâncias do feminismo radical. É na vivência de valores estéticos, criativos e atitudinais, que construímos sentido para o que temos de fazer, produzimos sentido para as aproximações, as convivências humanas. Somos responsáveis por encontrar o sentido, descobri-lo até mesmo onde não parece haver condição para isso.

Como profissionais, como pais, como educadores, devemos ser escultores da sensibilidade e cuidadores do sentido. Podemos buscar e produzir sentido na família, estimulando o afeto e o reconhecimento das incompletudes e necessidades reciprocas. Estimular a cumplicidade do existir amoroso entre irmãos, lá, onde a vida social se ensaia, onde o afeto une, reúne, desune e reúne de novo. Podemos criar sentido para as relações amorosas, que têm se emaranhado numa verdadeira ditadura das sensações. O sentido eletriza as relações, porque ele é fruto da verdade da ternura que sentimos pelo outro. M. Dorais pensa que: “O importante não é tanto que uma mão nos acaricie, mas saber a quem pertence essa mão, o que deseja essa pessoa e o que sentimos por ela”. Não basta que sejamos tocados, é preciso que o sentido permeie esse toque.

Fonte: jornal O Povo - 12/01/2014


Reinventando a felicidade

Postado em 02-12-2013

Com frequência, deparamos com momentos em que nos damos conta de que já não somos mais os mesmos de antes. Algo mudou. Muda sempre. Algo muda em nós quando nos permitimos, quando autorizamos nosso ser a rever suas bases de sustentação. Muda quando nos deixamos atingir, quando podemos ser afetados por leituras, filmes, ocorrências, conversas, reflexões, que podem ser marcos de um outro tempo, de um novo modo de ser e estar no mundo.

É quando estamos afetados pelo que está aí, que primeiro nos transformamos, e depois podemos transformar o mundo, a realidade que nos cerca. Pegamos carona nos fatos, e com eles, e através deles, mudamos o que há em nós e em torno de nós.

Somos uma cultura que postula um prazer sem limites, uma satisfação de todos os desejos como meta de felicidade. São enganosas essas promessas. Na verdade, acostumamo-nos com a busca de prazeres que funciona como tapa-buraco da inquietação imediata que é gerada em nós pela falta.

Que tal sairmos da posição de mero espectador e aventurarmo-nos a fazer viagens pelos caminhos da própria construção pessoal e possibilitar emergir em nossos espíritos adormecidos o sabor de uma coisa que não está aí, algo que submerge dentro de cada um. Cada um processa, em seu percurso, uma reinvenção ética de si mesmo, que se compreende no compromisso de pensar de outro modo a vida e a relação com os semelhantes.

Aristóteles dizia que “não pode ser feliz quem passa a vida dormindo ou não fazendo nada”. A felicidade estaria em fazer alguma coisa, mas não necessariamente a ação em si, mas o fato de nela colocarmos nossas melhores qualidades, através das quais nos sobressaímos. Trata-se, pois, não apenas de trabalho, mas da realização em si. Outra dimensão curiosa é apontada por Sponville: “A esperança de ser feliz não nos ajuda a sê-lo”. Ou na brincadeira de Woody Allen “como eu seria feliz se fosse feliz”.

Assim, quando esperamos ser felizes é que nos separamos da felicidade. O desejo de ser feliz é a própria falta da felicidade. Estamos separados da felicidade pela esperança de tê-la. Em geral, é assim que fazemos. Esperamos como a criança espera ser feliz no Natal, quando casar, quando emagrecer, no próximo ano.

Cada um de nós tem o dever peculiar de empenhar-se na melhoria de si, da própria vida e da vida em seu redor, do mundo que se faz em seus dias, do outro com quem se vive, da cultura que se constrói a partir do que se planta. Se cumpríssemos esse dever, já teríamos um grande resultado na convivência humana.

Contudo, essa mudança virá se formos capazes de ver além do nosso próprio umbigo e sairmos do comodismo e da espera. É hora de nos perguntarmos o que estamos fazendo da vida que temos nas mãos. Que páginas da história queremos deixar escritas com nossas ações?

Na orgia de consumismos, banalizações e celebridades não há dignificação do existir. Ou encontramos isso em nossa coragem de ser, ou corremos o risco de sermos páginas viradas que não deixam saudades em nenhum leitor.

Fonte: jornal O Povo - 02/12/2013


Encontro amoroso

Postado em 18-11-2013

Quando vou escrever meus artigos para o jornal, penso o que os leitores gostariam de ler em seus domingos, mas confesso que algumas vezes penso o que eu gostaria de escrever, e nesses momentos, como insinuam alguns leitores que me conhecem, produzo textos quase sempre biográficos. Hoje é um desses dias, envolvida na emoção de em breve lançar meu livro com os artigos aqui publicados, me sinto envaidecida por este meu encontro com o leitor. Nos últimos dias tenho enxergado a vida com um olhar diferenciado, em busca com certeza do encantamento necessário para sermos felizes.

Quando olhamos o mundo ao redor de nós, aprendemos que há um entrelaçamento de fatos e coisas que não parecem estar desvinculados e por acaso. Uma comunicação pode ser sentida e vivida quando paramos e enxergamos o que nos cerca. Algo se passa como se estas coisas que contemplamos gostassem disso e nos enviassem seu reconhecimento, nos tornando enriquecidos por essa interação.

O mito da origem narrado por Aristófanes em o Banquete de Platão nos faz pensar na origem da inquietação humana e no destino de sermos desejantes de outro ser. Segundo o mito, os homens tinham na sua origem os órgãos duplos, o que os tornavam robustos e velozes e por isso audaciosos. Um dia resolveram alçar aos céus atacando os deuses, e Zeus enfurecido esfaqueou-os, dividindo-os ao meio. A partir daí, cada metade pôs-se à procura da outra. André Comte-Sponville diz que outrora éramos um, mas eis que estamos separados de nós mesmos, razão porque não se para de buscar o todo que se era. Essa busca diz ele ser o amor, que quando satisfeito é condição de felicidade. Só o amor curaria a natureza humana ao se esforçar para fundois seres num só. Assim é que homens e mulheres somos hoje seres carentes, desejantes dessa suposta totalidade primordial.

Encanta-me a ideia de pensar que é outro humano que nos proporciona em breves instantes a superação da condição de finitude. É esse nível de experiência que mais satisfaz o humano, porque o aproxima de uma maior possibilidade de inteireza.

A sexualidade terá de ser pensada nesse olhar macro e não apenas em seus aspectos genitais e procriativos. Ela faz sentido, sim, no ato procriativo, mas significa também pelo mistério que a envolve e totaliza. Como se ela se instituísse numa grande metáfora, superando qualquer lógica racional. É nesse mistério que ela nos desafia e onde tudo pode significar, porque todo gesto humano tem poder de insinuação. A moda é um dos setores que mais exploram essa necessidade humana de tornar-se atraente e sedutor.

A partir do mito, penso se terá sido apenas para enfraquecer-nos que Zeus dividiu os seres andróginos ou se foi por saber da beleza maior da vida e das relações quando conseguimos viver essa busca como paralelas encantadas, que se encontram em espasmos de vida e ternura. A beleza “toca o infinito”, se pudermos ser o contato de duas poesias, a fusão de dois devaneios, o encontro de dois corpos. Nesse breve instante há o encontro com o maior de si e o maior do outro. Encontro com a vida, com a natureza e com o universo. Nesse encontro amoroso, somos nada e somos tudo!

Fonte: jornal O Povo - 17/11/2013


Dá para ser feliz?

Postado em 21-10-2013

Os meus artigos normalmente são imbuídos de realidade com toques de otimismo, mas confesso que ultimamente ando um pouco descrente da nossa sociedade. Tenho encontrado todos os dias pessoas armadas, não apenas de armas de fogo, mas em todos os sentidos, por inteiro. Desde os primórdios que o homem inventou armas para caçar, para se defender do inimigo, mas passou a usá-las também para dar vazão ao inconfessado gosto agressivo e destrutivo que lhe habita. Quando nos armamos não apenas portamos uma arma, também nos endurecemos para poder dela fazer uso. Não se mata em sã consciência, mas em condições endurecidas e transtornadas. Aí reside o risco. O sujeito armado interiormente é a pior das armas. Razão porque não nos basta o desarmamento externo, é preciso que gestos novos nasçam em cada um com a deposição das armas, para que de fato, desarmamento seja o novo nome da paz.

Envergonha-me sentir medo do meu semelhante, andar de carro com janelas fechadas, portas travadas e se possível blindado. Questiono estarmos nutrindo tão elevado grau de medo e desconfiança em relação aos outros e até mesmo das crianças, as quais fomos acostumados a amá-las e protegê-las. O que estamos fazendo a nossa humanidade na medida em que só pensamos em nos defender? Quando não mais nos amamos, nos armamos. Proponho que nos desarmemos de nossas intolerâncias, de nossas arrogâncias, de nossos lugares de vítima, de nossas relações de poder, de nossas mágoas, de nossas palavras (mal)ditas, de nossos desafetos, das banalizações que mantemos em relação ao outro e à vida. Receio que estamos trocando amor por endurecimento e chamamos isso de evolução. O amor e a ternura, bem poderiam ser paradigmas para a convivência humana.

É preciso com vontade interna e pessoal, querer, desejar, amar a paz. Mas precisamente querer isso com nosso agir. Isso será possível a partir de uma ética vivida por cada cidadão, a partir dos valores pessoais e sociais cultivados por cada um, da apreciação pelos sentimentos que conduzem à cordialidade, à solidariedade, à compaixão, ao respeito pelos outros. Por que teríamos que deixar o mal prevalecer? Imagino que somos uma esmagadora maioria a querer o bem. Por que cedemos o passo ao mal? Podemos encontrar caminhos de realização do bem que está em nós. Sem aguardar que o outro faça primeiro, teremos de tomar a sociedade em nossas mãos e, tijolo por tijolo, construí-las como nossos gestos, nossas ações, nossos valores e atitudes.

Não se trata de fazer as funções do estado, mas de participar como cidadãos nessa construção, e fazer que todos cumpram seu dever. Mas teremos de colaborar com as instituições e com o estado para um melhor cumprimento das funções protetoras e geradoras de bem-estar que lhes compete. Operacionalmente, isso significa que podemos promover bem-estar nos lugares onde vivemos ou trabalhamos; significa que cada cidadão pode descobrir o necessitado mais próximo de si, orientá-lo, dar-lhe apoio e solidariedade; que os políticos devem assumir a causa dos interesses dos cidadãos; que as Universidades podem realizar Programas de Extensão Universitária que realmente promovam o bem-estar no social; que cada um de nós cuide do próprio bem-estar para que ele se reflita na convivência com os demais. “Felicidade pública” tem efeito dominó, todos usufruem. Ninguém deveria ficar de fora.

Fonte: jornal O Povo - 20/10/2013

 

 


Resgatando o afeto

Postado em 23-09-2013

O afeto é um sentimento simples, em que se acolhe o outro em sua inteireza, do jeito que ele é. Da infância até a morte, o afeto é vital, e dá sustentação e sentido ao nosso conviver. Nas parcerias, há uma tendência a garantir a posse do outro, como se ele fosse um troféu, uma tábua de salvação, não uma pessoa com quem se partilha afeto. Os “machões” dizem que afeto é coisa de mulher, ou de gente frágil.

Lamentavelmente em nossa cultura, afeto e ternura, tornaram-se sinônimos de fragilidade. Talvez se privem do afeto em seu endurecimento, mas por fraqueza, por medo de fazer vínculos, de gostar de alguém. “A doçura”, diz Sponville, “é uma coragem sem violência, uma força sem dureza, um amor sem cólera”. Penso assim também em relação ao afeto, como uma força tranquila, parecida com o amor.

Devemos converter nosso olhar em relação ao outro para que a harmonia e afeto possam encontrar espaços entre nós. O modo como o olhamos, produz vínculos ou afastamentos. Um olhar é como um discurso. Diz, revela, condena, perdoa, acaricia ou pune. Pelo olhar, escutamos a dor, a alegria, a inquietação, a solidão, o prazer. Precisamos valorizar a força que tem o olhar e o poder da comunicação do rosto. Na mostra banalizada dos corpos em nossa cultura, esquecemos que é pelo rosto que nos encontramos com o outro, que é pelo olhar que nasce o afeto.

O deslocamento de nosso olhar para regiões “siliconadas”, como lócus de prazer, afasta-nos do sentido humano de ver o homem todo, a pessoa.

Os dias atuais apontam para uma necessidade maior de afeto e menos violência. É preciso ensaiar de novo o amor, resgatar a afetividade, para que possamos ver “os cinquenta tons de cinza do arco íris”, a vida nos olhos dos outros, a generosidade das pessoas, a dor do irmão que sofre, a carência do filho que chora, o som da chuva. Precisamos reaprender o exercício de pequenas expressões civilizadas e afetivas. Desarmar nossa internalidade e não ter a vergonha de ser afetivo.

Minha preocupação tem se voltado para a frequente condição de mal estar em que estamos vivendo. De certo modo, estamos contagiados pela agonia coletiva da humanidade e falar disso é uma tentativa de pensá-la, preveni-la, atenuá-la. Talvez devamos começar a pensar também em caminhos que possibilitem algumas saídas desse círculo vicioso do sofrimento, da violência, dos crimes, das corrupções e dos abusos de álcool e drogas.

São múltiplas as possibilidades de tornar a vida mais humanizada, mais calorosa, mais significativa. Resgatar em nós a afetividade é uma dessas possibilidades construtivas.

Sempre que escrevo sobre sentimentos, sinto saudade dos abraços que não dei, dos afetos que não troquei, dos gestos que não foram feitos, dos afagos que economizei, dos olhares que não troquei. A vida tem pressa e ontem já se foi. Amanha é agora. A boa notícia é que se corrermos... ainda dá tempo!

Fonte: jornal O Povo - 22/09/2013

 

 


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Deputado Estadual Artur Bruno

1998 - 2017. Artur Bruno - Secretário do Meio Ambiente e Sustentabilidade (SEMA)
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