O Ceará na comparação com os vizinhos e o desastre social

|| Postado por Zezé Medeiros em 29-11-2013

O jornalista Erico Firmo conversou com a secretária Izolda Cela sobre o ensino médio no Ceará



 Tratei na última coluna do cenário do ensino médio do Ceará, a partir dos resultados do Enem. Sobre esse assunto conversei ontem com a secretária da Educação do Estado, Izolda Cela. Já comentei algumas vezes os bons resultados obtidos por ela. Para além disso, trata-se de uma das cabeças mais interessantes da equipe de Cid Gomes (Pros), pela capacidade de reflexão e, entre outras coisas, por não querer distorcer a realidade. “O ensino médio ainda é algo que adjetivo como gravíssimo, apesar do esforço de melhoria sinalizado. É muito grave em termos de resultado”, afirma, sobre o quadro nacional, do qual o Ceará é parte. Não é todo gestor que tem esse nível de consciência e sinceridade.

Muitos tentam vender uma realidade que não existe para iluo público e - mais grave ainda - há os que se convencem da própria ilusão. Izolda, felizmente, não faz esse tipo. Ela, contudo, pondera aspectos quanto à divulgação dos números e à comparação do Ceará com outros estados. Ainda não foram tornados públicos números da participação dos estudantes da escola pública no exame referentes a 2012. Mas Izolda menciona os dados de 2011 e aponta discrepância entre o Ceará e os vizinhos. Segundo ela, os estudantes cearenses de escolas públicas tiveram quase 60% de participação, enquanto os baianos tiveram 33%, alagoanos, 33%, pernambucanos, 34% e norte-rio-grandenses, 39%. Todos esses estados, na média geral – pública e privada – ficaram à frente do Ceará no Enem 2012. Contudo, a diferença na base avaliada é brutal. E a secretária chama atenção que, como regra, quem faz o exame são estudantes mais ligados, com expectativa de ingressar na universidade. Em síntese, aqueles com melhor desempenho. Quanto mais restrito o universo avaliado, maior é, por um lado, a probabilidade de a nota subir. Por outro lado, quando menos gente faz o exame, pior o diagnóstico que se tem da realidade da rede.

Izolda acrescenta que o governo cearense tem adotado política de estímulo à participação. Já era relativamente alta em 2011 e subiu em 2012. Tanto que o temor, segundo a secretaria, era de que a nota caísse, pela ampliação da base. Mas o que houve até foi a ligeira melhora. Em 2013, ela informa que as inscrições chegaram a quase 95% entre os estudantes do terceiro ano na escola pública e de mais de 80% dos que estão no segundo ano. A política de incentivar a participação inclui transporte para quem precisa, hospedagem no Interior para quem tem necessidade e kit alimentação, para que o estudante não tenha desconforto de fome ao longo de uma prova longa. “Para que não perca a oportunidade por carência”.

Diante dessa diferença de envolvimento dos estudantes, ela pontua, na comparação com os estados de realidade mais parecida: “Em relação aos nossos pares, não estamos abaixo”.

PROBLEMA DE BASE E DOIS EM CADA TRÊS ESTUDANTES EM ESTADO CRÍTICO


A secretária Izolda reconhece que o avanço nos últimos anos tem sido bem maior no ensino fundamental que no ensino médio. Isso no Brasil e no Ceará. A maior evolução é nas séries iniciais. Piora na medida em que se avança. O problema é de base: primário mal feito. E a onda de evolução ainda não chegou ao ensino médio, por razões que vêm de antes. Conforme a secretária, a última avaliação externa mostrou que em torno de 65% dos estudantes no 9º ano - último antes do ensino médio - estavam entre nível considerado crítico e o muito crítico. Isso corresponde a dois em cada três estudantes da rede pública nessa série. Assim, quando chegam às etapas mais avançadas, é preciso recuperar o que não se aprendeu antes. A crise do ensino médio é, portanto, a última etapa, em que desaguam os reflexos de um processo todo ele problemático. Dá-se, então, o paradoxo: o professor tem um currículo a cumprir e encontra classes absolutamente desiguais, cuja maioria é incapaz de acompanhar o conteúdo. Por isso, Izolda destaca que uma das orientações é fazer o processo de ensino se encontrar com esse “aluno real”, aquele que está em sala de aula, e não a abstração curricular. “Não é rebaixar, mas fazer com que o projeto pedagógico dê repuxo de qualidade a esse aluno” diz.

E sabe o que é mais preocupante: mesmo com esse cenário desolador no 9º ano, com esmagadora maioria em nível crítico, o Ceará tem destaque nacional e está sendo pesquisado, junto do Acre, pelo crescimento atípico, acima do normal. Avalie o resto.

A REAÇÃO QUE PRECISA SER DESENCADEADA

Izolda reconhece que o avanço vigoroso nas séries iniciais não se reproduz no ensino médio. O nível, quando não cai, fica estável. A secretária salienta que a repercussão da melhora embaixo no andar de cima não é algo automático. O caminho precisa ser construído. Ela admite que a distância que separa o Ceará do nível educacional de Sul e Sudeste não está próxima de ser superada. É necessário dar o impulso e manter o ritmo acelerado. Por enquanto, a situação é dramática e manter os estudantes na escola ainda é um desafio, apesar do avanço já alcançado. O abandono escolar era de cerca de 25% em 2006. Atualmente, se encontra entre 14% a 16%. “Há toda uma problemática de violência, que afeta diretamente os jovens, principalmente os mais pobres. Tudo isso é uma correnteza puxando para fora da escola”. Nesse contexto, o Ceará já deu salto em relação à expectativa de anos de estudo, hoje entre as primeiras do Brasil. Mas a média nacional ainda não contempla nem a quantidade de anos obrigatória. “É um desastre, jovens saindo totalmente despreparados da escola. É um desastre social grande”. Ainda assim, a secretária é otimista quanto ao esforço que é feito, apesar do longo caminho a trilhar.

Fonte: jornal O Povo - 29/11/2013




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PERFIL

Artur Bruno é professor e deputado federal pelo PT-CE. Atualmente é primeiro vice-presidente da Comissão de Educação da Câmara dos Deputados. Já foi deputado estadual por quatro mandatos consecutivos e vereador de Fortaleza por outros dois. É casado com Natercia Rios e pai de Marina e Mayara.

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