Como conviver com o outro?

|| Postado por Newton Albuquerque em 31-08-2011

Manoel Soares Bulcão Neto, intelectual e ensaísta cearense, em intelgente entrevista tematiza sobre a difícil arte da convivência humana e outros temas correlatos.



DN - Os fenômenos históricos que, me parecem, são os motores desta reflexão [referência ao ensaio A eloquência do ódio] estão ligados aos regimes totalitários do século XX. O que estas manifestações trouxeram de novo para a história do ódio ao diferente?

Manuel Bulcão – Trouxeram a luta de extermínio decorrente da incompatibilidade entre povos ou grupos sociais que se julgam universalmente “eleitos”: os judeus por IHWH, os germânicos pela seleção natural (considerada reles instrumento dos deuses nórdicos e de outros seres divinais do misticismo oriental), os eslavos pelos pan-eslavistas (que consideravam essa raça como o novo Cristo do “Eschaton”) e a “vanguarda” comunista pelas férreas leis da História.

DN – No caso dos regimes fascistas, costuma-se falar em racionalidade, mas sem que se entre num consenso. Ora são existes que, num extremo racionalista, não são freados por uma moral; ora, são arroubos de irracionalismo. Na sua opinião, de que lado ficaria o regime nazista?

Manuel Bulcão – Alguns pensadores sustentam que os totalitarismos do séc. XX ou são o desdobramento inevitável da razão iluminista, ou – como defende Z. Bauman – uma possibilidade que surgiu com a racionalidade moderna (possibilidade esta que não havia antes). Discordo desses pontos de vista. A Ciência e sua tecnologia apenas incrementaram, de forma exponencial, tanto as forças produtivas quanto as destrutivas; vale dizer, tornaram-se também instrumentos das inextirpáveis pulsões irracionais humanas. A propósito, para embasar esta suposta relação “necessária” entre racionalismo e totalitarismo, cita-se os campos de extermínio nazistas como “fábricas modernas” ou verdadeiras “indústrias da morte”. Esquece-se, no entanto, que não menos que 40% dos judeus mortos no Holocausto foram assassinados por métodos arcaicos, nada modernos, como fuzilamentos, trabalhos forçados até a morte etc. Demais, é importante lembrar que o Partido Nazista praticamente surgiu de uma seita místico-esotérica, a “Casa Thule”; que seus ideólogos foram fortemente influenciados pelo irracionalismo de Nietzsche (este filósofo, em sua obra Vontade de Potência, declara-se o “antidarwin”) e outros irracionalismos mais primitivos, como a teosofia de H. P. Blavatsky, o armanismo, a teozoologia, a judeofobia cristã etc.

DN – A Ditadura Militar se assemelha a casos como do nazismo?

Manuel Bulcão – Há pontos em comum, como o autoritarismo e o patriotismo. As diferenças, entretanto, superam em muito as semelhanças; pois o nazismo foi também, e sobretudo, um totalitarismo, um racismo político e uma concepção de mundo. Aliás, como afirmou Lenin, uma ditadura militar ou “pessoal” não é necessariamente a negação cabal da democracia (seja “burguesa” ou “proletária”), consistindo, no mais das vezes, em regimes que se autoproclamam “de exceção” ou, conforme Roberto Campos, “biodegradáveis”: “uma magistratura extraordinária adaptada a épocas e circunstâncias excepcionais” (N. Bobbio), e que “pode ser boa ou má” (Maquiavel). Trata-se, pois, de uma forma de governo bem distinta da “tirania”, caso tanto do stalinismo como do hitlerismo. A tirania, segundo os clássicos, é uma forma má de governo por excelência.

DN – Ao se falar em racismo ou alofobias, como você amplia no livro, é comum ver uma das partes ser retratada como vítima. No entanto, lembro do caso judeu/palestino, onde me parece o ódio é canalizado nas duas direções. Este embate de alofobias era mais comum na antiguidade que nos nossos dias?

Manuel Bulcão – O fato de o “Homo sapiens sapiens” ser a única espécie do gênero “Homo”, e este o único gênero da família “Hominidae”, talvez isso indique, como apontou J. Monod, que o “struggle for life” de Spencer (luta intraespecífica – entre raças e grupos – de vida ou morte) foi um dos principais fatores da seleção da espécie humana.  Sim, provavelmente fomos nós os assassinos dos nossos irmãos “sapiens neanderthalensis” e dos nossos primos “australopithecus”. Diga-se, ainda, que, segundo os antropólogos R. Wrangham e D. Peterson (“O Macho Demoníaco”, 1998), cerca de 30% dos indivíduos das tribos neolíticas ou de caçadores-coletores que ainda existem (caso dos Ianomânis) morrem em escaramuças intertribais (esse índice é idêntico ao dos chimpanzés). Demais, não são poucos os povos primitivos que se designam como “homens verdadeiros” ou “gente de verdade” (p.ex., os Suruí, os Paracanâ, os Crenacarore…), o que significa que o Outro não é considerado como igual ou pertencente à mesma espécie. Tudo isso são indícios de que os choques de alofobias eram muito mais comuns no passado. Não obstante, os choques que se verificam hoje são muito mais mortíferos e impressionáveis. Mortíferos porque, em vez de arco e flecha, os conflitantes atualmente se enfrentam com fuzis, metralhadoras, mísseis etc. E impressionáveis porque, graças ao surgimento das religiões universalistas (que proclamam a igualdade de todos perante Deus) e do iluminismo, valores tais como igualdade, liberdade e fraternidade tornaram-se componentes do bom senso de toda a humanidade. Por isso que, em relação ao litígio entre judeus e palestinos, não há apenas torcedores raivosos, mas também uma vasta gama de indivíduos e grupos sociais (cristãos, judeus, muçulmanos, ateus…) que se propõem o papel de árbitro e que, em solidariedade a essas duas etnias, anelam não a paz do vencedor ou do cemitério, mas a paz do consenso.

DN – Quais os riscos da posição antirrascista, de afirmação desse ou daquele grupo específico, tornar-se, ela também, uma postura racista?

Manuel Bulcão – Existe um antirracismo “universalista” que, em vez de celebrar a diversidade humana (nosso politipismo e polimorfismo) e a igualdade na diferença, pretende superar todos os tipos numa síntese racial superior.  Os “antirracistas” da Ação Integralista Brasileira (Plínio Salgado, Gustavo Barroso entre outros) elegeram o caboclo como “a síntese de todas as raças e representante da união cristã dos povos”. Ora, esse antirracismo não passa de um racismo invertido, ou melhor, do racismo do mestiço. Nos EUA, há os ideólogos do melting-pot, que almejam fundir no caldeirão da mestiçagem as raças que existem nesse país, de modo a criar “o novo homem americano” (i.é, uma nova raça). Trata-se de outro racismo travestido do seu contrário. Obviamente que há, também, o risco de minorias – ou mesmo maiorias – “de cor” oprimidas pelo racismo dos brancos virem a reagir irracionalmente e, assim, criar o seu próprio racismo, fundado no ressentimento.

DN – Me parece que, por vezes, é difícil para muita gente associar reflexões sobre manifestações extremas do ódio (caso dos já citados regimes totalitários) com práticas cotidianas, onde o Outro é menos discernível. Penso numa mobilidade dessa alteridade, como no caso dos fumantes. Leis de restrição ao fumo, como em São Paulo que aboliu mesmo a existência de fumódromos, são manifestações alofóbicas?

Manuel Bulcão – Penso que sim.  Infelizmente, a “instituição” do bode expiatório ainda é necessária para muita gente (fato que muitos políticos manipulam), e me parece que os fumantes, atualmente, estão sendo investidos desta função, principalmente por aqueles que sofrem de uma doença grave e mentalmente degenerativa: a mórbida obsessão por saúde e corpo perfeitos (esses narcisistas não hostilizam apenas os fumantes, mas também os gordos, ambos tratados como desviados morais).

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Entrevista publicada no dia do lançamento do livro A eloquência do ódio: reflexões sobre o racismo e outras alofobias (BULCÃO NETO, Manuel Soares. São Paulo: Editora LivroPronto, 2009, 276 pp.).

http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=675264



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PERFIL

Artur Bruno é professor e deputado federal pelo PT-CE. Atualmente é primeiro vice-presidente da Comissão de Educação da Câmara dos Deputados. Já foi deputado estadual por quatro mandatos consecutivos e vereador de Fortaleza por outros dois. É casado com Natercia Rios e pai de Marina e Mayara.

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