Passeio nos quintais

|| Postado por Newton Albuquerque em 31-08-2011

Ana Miranda em sua crônica mais recente trata do quintal e de sua dimensão lúdica, one as fantasias e as brincadeiras infantis exercitavam-se livremente.



Primeiro, meninos, vamos ali debaixo do cajueiro, procurar os soins, e levamos esta cesta para colher cajus, os cajus que sobraram das bicadas dos passarinhos, formigas, abelhas, o quintal é primeiro da natureza, depois é nosso. Macaquinhos comem cajus? Vovó não sabe, mas acho que sim. Chamam-se soins ou saguis, andam em bandos, a família junta, está vendo ali o filhote, nas costas da mãe? Gostam de escorregar nas flores roxas da trepadeira, aquelas. Quando vovó era criança não tinha soim, tinha gato no telhado, vovó tinha quintal, sim, o primeiro quintal tinha coqueiros e vento, eu era tão pequenina, mas lembro de tudo, se vocês olharem nos meus olhos vão ver as palmas balançando lá no fundo das lembranças. Quando vocês forem grandes os seus olhos vão guardar o cajueiro perfumando as areias. O segundo quintal da vovó tinha uma goiabeira que dava goiabas brancas e goiabas vermelhas, tinha lobos guarás e flores caliandras, tudo era céu, depois vovó não teve mais quintal, mas os meus quintais ainda existem no quintal de vocês. Este quintal a vovó fez para vocês, encontrei o quintal mais bonito no lugar mais bonito do Brasil, que é o Ceará, tudo é mar, o quintal tem aqueles coqueiros, palmeiras, aquelas flores escarlates são buganvílias, aqui um dia pousou um bando de aves de arribação, vieram de muito longe, vão e voltam pelo próprio ímpeto, ali bailaram dois gaviões ensaiando o namorar, estas são lavandeirinhas, lavam os mantos santos, e ali há um ninho de sibite, parece um açucareiro, vamos ver, sibites têm o peito amarelo e uma listra branca na cabeça preta, comem frutas, insetos e néctar de flores, cantam sim, um dia um gato preto comeu os filhotes de sibite, não esqueçam, o mundo é muito perigoso. Tudo renasce. Este é um flamboyant que morreu ali e nasceu aqui. Vamos olhar o livro, vejam, aqui está: sibite em inglês é banana-quit. Maria-branca é grey-monjita, e come larvas. Os soins não têm nome, mas podemos escolher, o nome do biscoito não ficou biscoitolate? Meninoim? Achei bom. Ali é o lugar mágico do quintal, onde tudo o que plantamos nasce piscando como estrelas, numa só noite a ramagem sobe pelos muros, alcança os coqueiros mais altos, as nuvens, a lua, juntando tudo num grande tapete, vamos plantar ali os nossos sonhos? O quintal de vocês tem os telhados distantes, como estão distantes algumas pessoas a quem amamos, tem as areias das dunas que se movem, como a vida se move, tem o maceió com medo de chegar ao mar, como são tantos os nossos medos, o mar cada dia de cores diferentes, como nossos humores, e as jangadas, ali, aquelas velas abertas estão secando, dá muito trabalho pescar, como dá trabalho ganhar a vida, mas tudo tem um horizonte, ali atrás está a África, depois vem o mundo antigo, o horizonte é infinito, sim, por quê? para nos lembrar de como somos pequeninos, como as formigas olhando esta jabulana sub-vinte, o quintal existe para vocês terem lembranças, não se esqueçam de fazer um quintal para seus filhos.
 

Cuidado, não andem descalços, há perigos na areia, quais? Bicho-do-pé, cobra de duas cabeças... bicho-do-pé é uma fêmea que entra na sola do pé e incha, cheia de ovos, Não! Não são ovos para fritar! Cobra de duas cabeças nem sei se existe mesmo, ou se é uma invenção do povo, nunca vi, vovó vai olhar na enciclopédia. Google? Acho melhor abrir um livro! Por quê? Nos livros vocês podem confiar, tudo está escrito correta e eternamente, como no horizonte, os velhos mais sábios prepararam os livros, faz muito tempo, escreveram e são eternos, não, no nosso quintal não tem anta, lembram do á-bê-cê da fauna brasileira? Mas vamos, calcem suas chinelas, vamos antes que o sol esquente, passaram filtro solar no rosto e nos braços? Na minha infância não tinha filtro solar, não, verdade, mas também não havia buraco na camada de ozônio, na minha infância não havia palavras tão difíceis e sombrias, a maior ameaça era a madrasta da Branca de Neve. Agora vamos olhar bem o quintal, sei que vocês nunca irão esquecê-lo, vovó queria entregar a vocês todas essas lembranças, volto a ser criança quando passeio com vocês, e nada tão bom como voltar a ser criança. Nunca deixem de ser crianças, nunca esqueçam sua infância, um escritor antigo dizia que nossa infância é nosso país, quer dizer, nós passamos a existir e nos formamos na nossa infância, nascemos como pessoas, as que sempre seremos, e sempre seremos as crianças que fomos. Se o quintal cabe na mala? Cabe em qualquer bolsinha. Levar o quintal? Claro que podem!

 

Ana Miranda é escritora, autora de Boca do Inferno (1989), Desmundo (1996) e Amrik (1997), entre outros.

 



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PERFIL

Artur Bruno é professor e deputado federal pelo PT-CE. Atualmente é primeiro vice-presidente da Comissão de Educação da Câmara dos Deputados. Já foi deputado estadual por quatro mandatos consecutivos e vereador de Fortaleza por outros dois. É casado com Natercia Rios e pai de Marina e Mayara.

Site oficial: www.arturbruno.com.br

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