As mobilizações juvenis e a Jornada de Lutas da UNE

|| Postado por Newton Albuquerque em 31-08-2011

A UNE retoma as ruas, articulando as lutas por mais investimentos em educação



No dia 31 de agosto, realizaremos, em conjunto com dezenas de entidades do movimento educacional e social brasileiro, uma grande passeata nas ruas de Brasília em defesa dos 10% do PIB e 50% do Fundo Social do Pré-Sal para a educação pública. Esse dia encerrará um processo riquíssimo de mobilizações em todo o país.

O ano de 2011 começou com uma série de rebeliões sociais protagonizadas por jovens em todo o mundo. Nos países árabes, revoltas populares estouraram a partir da agudização da crise mundial e condensaram-se em lutas contra os regimes ditatoriais. Os momentos decisivos nas praças do Egito, Líbia, Tunísia, entre outros, tinham jovens na linha de frente.

Na Europa, as receitas ultra-liberais para a crise econômica provocaram os grandes levantes assistidos inicialmente na Grécia, seguindo-se aos acampamentos nas Praças de Madri, Barcelona e outras cidades espanholas. Algum tempo depois, foi a vez das ruas londrinas serem tomadas. Em todos esses lugares, a juventude mesmo exaurida pela exploração, reuniu energias suficientes para gritar “se não nos deixam sonhar, não os deixaremos dormir!”.

Em nosso continente, todos nós temos acompanhado o conjunto de mobilizações no Chile. Desde o ano passado, os/as estudantes chilenos já têm ocupado as ruas, praças e universidades em defesa de uma educação pública. A partir desse ano demais movimentos organizados e o conjunto da sociedade aderiu aos protestos. Na semana passada, foi feita a primeira Greve Geral desde o regime de Pinochet, reunindo cerca de 300 mil pessoas que marcharam por Santiago.

Todos esses levantes populares, com grande participação da juventude, são exemplos importantíssimos para as lutas que travamos no Brasil. Representam o descontentamento dos/as trabalhadores/as após 30 anos de supremacia do neoliberalismo e oferecem a todo o mundo o frescor da nossa luta diária por uma sociedade mais justa e solidária.

No entanto, é preciso diferenciar cada uma dessas mobilizações para não incorremos em romantismos e não sermos pegos por surtos de uma ansiedade revolucionária. A conjuntura em que lutamos no Brasil é bastante diferente dos árabes primaveris, dos indignados espanhóis ou dos estudantes chilenos.

No Chile, nosso irmão latino-americano e onde as mobilizações têm sido mais emblemáticas nas últimas semanas, as pautas são muito parecidas com as da UNE e dos estudantes brasileiros: lutam por uma educação universal de qualidade, com estrutura pública para o ensino, a pesquisa e a extensão. Lá, como aqui, 80% das universidades são privadas. No entanto, diferentemente do Brasil, no Chile as universidades públicas são pagas e a educação é profundamente mercantilizada!

Essa realidade decorre do “sucesso” do neoliberalismo chileno, referência paradigmática para os adeptos do Consenso de Washington. Mesmo não sendo interrompida durante os anos da Concertación, essa política está sendo radicalizada pelo governo pinochetista de Piñera. O governo chileno não somente tem reforçado caráter mercantil da educação como tem reprimido violentamente todas as mobilizações contrárias a essas políticas e ao seu governo – na semana passada, um estudante de 14 anos foi assassinado pela repressão.

Uma leitura fria sobre os fatos e a realidade chilena e um necessário desapego de qualquer fetichismo que nos levaria a avaliar as gigantescas mobilizações por elas mesmas, aproximam as lutas dos estudantes chilenos àquela que desenvolvemos nos anos 90, auge do neoliberalismo no Brasil. Naquele momento, fomos responsáveis por grandes mobilizações contra a privatização e mercantilização a que o governo FHC submetia a educação pública. Além disso, participamos com enorme protagonismo do movimento que superou as lógicas cooporativistas e permitiu a eleição de Lula. É isso mesmo! No Chile, a década de 90 é agora!

Os desdobramentos, lá e aqui, continuam dependendo de uma dura luta política. Por lá, a queda de Piñera ainda não está no horizonte mais próximo. Por aqui, a luta contra o projeto neoliberal ainda não se esgotou. Nós ajudamos a eleger um governo com fortes laços e compromissos com os movimentos sociais. No entanto, é um governo fortemente disputado pelos capitalistas brasileiros, que ainda ocupam espaços estratégicos na estrutura de poder do nosso país.

Essa compreensão de disputar os rumos do governo e do país já se enraizou entre os movimentos sociais brasileiros e, dentre eles, também na UNE. Parece, porém, que padecemos ainda de uma plataforma política que seja capaz de mobilizar o conjunto da sociedade em tempos de maior felicidade. Isto é, a nossa referência neste caso não pode ser a dos jovens árabes, europeus ou chilenos.

A conjuntura no Brasil é outra, com uma correlação de forças mais favorável ao socialismo democrático. Nossos jovens não são os indignados espanhóis, flagelados por uma crise estrutural do capitalismo que não os incorpora nas dimensões produtivas e de cidadania. A nossa juventude está mais otimista e disposta a agir no sentido da transformação coletiva do mundo. Os movimentos sociais construíram espaços de participação e interlocução com o Estado que nos permite interferir mais na elaboração de políticas. A trajetória militante de grande parte dos dirigentes nacionais do governo faz com que a prática dominante seja o diálogo e não a repressão.

Apesar de hegemonicamente privado, o ensino superior não é hoje mais privilégio da elite. A universidade está cada vez mais feminina, negra, trabalhadora e popular. Pela nossa luta, tem avançado a implementação da reserva de vagas com recorte étnico-racial, que permitirá vincular decisivamente a universidade ao povo brasileiro. Com mais trabalhadores, e não somente os seus filhos, estamos amalgamando as agendas estudantis às agendas de classe e aproximando do nosso horizonte o rompimento da maldição que impregnou a formação da classe trabalhadora no Brasil: aquela que separa a formação para o trabalho manual da formação para o trabalho intelectual.

Acreditamos que seja o momento de construirmos ações mais integradas entre os movimentos sociais. A pauta estudantil não será vitoriosa se a da saúde não o for e assim por diante. Nessa perspectiva, o Agosto Verde e Amarelo da UNE foi um importante momento de interação dos estudantes brasileiros com outras pautas que não somente as nossas. Durante o mês de agosto, manifestamos nossa solidariedade à luta dos estudantes chilenos, participamos da luta dos servidores técnico-administrativos em educação marcando presença nos diversos atos pelo Brasil inteiro, estivemos presentes na Jornada de Lutas do MST e nas dezenas de atos dos professores pela adoção do piso salarial nacional.

No dia 31/08, realizaremos, em conjunto com dezenas de entidades do movimento educacional e social brasileiro, uma grande passeata nas ruas de Brasília em defesa dos 10% do PIB e 50% do Fundo Social do Pré-Sal para a educação pública. Esse dia encerrará um processo riquíssimo de mobilizações em centenas de universidade, de paralisações diárias a ocupação de reitorias. Tudo isso demonstrou a pujança do movimento estudantil e da juventude brasileira.

O passo seguinte poderá ser decisivo para o aprofundamento das nossas lutas, daquilo que chamamos de Revolução Democrática. Na nossa opinião, a UNE poderá dar mais uma vez a sua contribuição ao convocar todas as entidades do movimento social para uma grande frente unitária de luta, envolvendo trabalhadores de todas as áreas e formulando estratégias conjuntas para cada ação política.

A Jornada de Lutas de março poderá ser uma oportunidade para apresentar esse novo momento dos movimentos sociais no Brasil. Quem sabe assim ofereceremos mais uma vez o exemplo da luta da juventude aos revolucionários de todo o mundo.

Clarissa Cunha é vice-presidenta da UNE e Estevão Cruz é diretor de Políticas Educacionais da UNE


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PERFIL

Artur Bruno é professor e deputado federal pelo PT-CE. Atualmente é primeiro vice-presidente da Comissão de Educação da Câmara dos Deputados. Já foi deputado estadual por quatro mandatos consecutivos e vereador de Fortaleza por outros dois. É casado com Natercia Rios e pai de Marina e Mayara.

Site oficial: www.arturbruno.com.br

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