Os distúrbios, o pensamento único e a esquerda

|| Postado por Newton Albuquerque em 22-08-2011

O artigo trata da permanente tentativa da direita de despolitizar e criminalizar os eventos recentemente ocorridos em Londres ligados aos lutas sociais contra o desemprego estrutural



Em uma sociedade reticente às mudanças e dominada pelos braços midiáticos conservadores, o grande enigma é que espaço tem uma visão de esquerda para construir um relato que impeça a direita de capitalizar os saques com uma agenda de linha dura. O Reino Unido é uma sociedade basicamente conservadora que contribuiu para a construção do pensamento único com o thatcherismo e que não saiu da miragem produzida pelo crescimento do consumo nos últimos 30 anos. O artigo é de Marcelo Justo, correspondente da Carta Maior em Londres. 

Os saques e distúrbios que comoveram a Inglaterra em agosto mostraram uma clara fratura social. Nem sequer o primeiro ministro David Cameron, que em um primeiro momento procurou desqualificá-los como “um fato puramente criminoso”, pode escapar de seu significado. Em uma tentativa de ganhar a batalha discursiva, Cameron mudou de tom rapidamente e começou a falar de uma “desintegração moral” provocada pela passiva dependência do Estado de bem-estar e pela falta de responsabilidade individual por um “uso abusivo dos direitos humanos”. Em uma sociedade reticente às mudanças e dominada pelos braços midiáticos conservadores, o grande enigma é que espaço tem uma visão de esquerda para construir um relato que impeça a direita de capitalizar os saques com uma agenda de linha dura.

O Reino Unido é uma sociedade basicamente conservadora que contribuiu para a construção do pensamento único com o thatcherismo e que não saiu da miragem produzida pelo crescimento do consumo nos últimos 30 anos. Como um aristocrata em decadência que vive de seu título de nobreza, os dias de glória do império seguem sobrevoando sua identidade presente.

Ninguém pensa que o Reino Unido tenha alguma possibilidade de voltar a ser a primeira potência, mas muitos não esquecem que ele já ocupou essa posição: os britânicos sentem um direito intrínseco a fazer parte da mesa do poder. Neste contexto, o espaço da esquerda tem claros limites. A necessidade de aproximar-se do consenso conservador dominante para poder chegar ao governo produziu o fenômeno do “Novo Trabalhismo” que manteve, entre 1997 e 2010, as reformas thatcheristas enquanto tentava suavizar suas arestas mais afiadas com políticas como a introdução do salário mínimo.

Este consenso trabalhista-conservador pós-thatcherista foi questionado pela primeira vez com a queda do Lehman Brothers e a crise de 2008. O questionamento não durou muito. Uma clara mostra do quão enraizado está o pensamento único no Reino Unido é que, um ano e meio depois da crise, os conservadores ganharam as eleições de maio de 2010, invocando o fantasma grego e dizendo que a culpa pelos problemas econômicos britânicos era do trabalhismo que havia aumentado o déficit fiscal. Do resgate estatal que havia impedido uma debacle total, nem uma palavra.

Londres em chamas
Quinze meses mais tarde, os distúrbios mostram similares atos reflexos da população em meio à crise econômica. Práticos, pouco dados à “conceitualização”, com séculos de empirismo nas costas, o comentários de muita gente na rua era que, no melhor dos casos, tratava-se de uma destruição sem sentido. Como disse a este correspondente um casal de aproximadamente 24 anos, a mesma idade que a média dos participantes nos distúrbios: “nós também estivemos desempregados e é difícil, mas nem por isso saímos para as ruas para destruir os mesmos negócios locais que vão nos dar trabalho”.

Nos sindicatos de servidores públicos, particularmente afetados pelos cortes orçamentários da coalizão, a reação tipificou esta necessidade de levar em conta a opinião pública, marcar uma distância em relação aos roubos e, ao mesmo tempo, tentar lançar uma análise diferente no debate. “Temos que compreender que isso não ocorre no vazo. Não estamos aceitando a violência, mas não podemos apagar o que aconteceu dizendo que é uma violência de descerebrados. O desemprego juvenil está em seu nível histórico mais alto. O custo da educação vai subir às nuvens. A desigualdade é a pior desde os anos 30”, pontua Mark Serwotka, secretário geral do sindicato de funcionários públicos, o PCS.

Há sinais, porém, de que uma maioria da população não está disposta a aceitar uma visão reacionária que contribua para redimensionar o estado de bem estar significativamente, ambição do primeiro ministro David Cameron. Uma recente pesquisa do site Yougov mostrou que mesmo os eleitores conservadores pensam que os cortes no Estado de bem estar são temporários e deveriam ser revertidos uma vez que se saia da situação de emergência econômica. No total, cerca de 69% dos pesquisados indicaram que os cortes deveriam ser transitórios. “A metade dos eleitores conservadores não são thatcheristas e valorizam os serviços públicos e seus direitos adquiridos. Estes eleitores são uma oportunidade para o líder trabalhista Ed Miliband porque os conservadores nunca são convincentes quando falam de proteger os serviços públicos. Mas o trabalhismo precisa convencer a maioria de que o Estado vai estar a serviço de todos. Nossa pesquisa mostra ao mesmo tempo que “estado” e “governo” não são palavras populares, o que não quer dizer que as pessoas querem um estado dizimado”, assinala Tim Hurton, do Yougov.

Ed Miliband abordou o tema cautelosamente, equiparando a conduta dos bancos com os problemas que os distúrbios mostraram. No momento, o debate é defensivo e se concentrará em manter o estado de bem estar, a saúde nas mãos do Estado e a necessidade de maior igualdade. Uma investigação publicada esta semana mostra que duas quintas partes da população está pior agora que durante a recessão de 2009. Outra mais dramática, publicada recentemente, assinalava que a queda do nível de vida dos britânicos é a mais pronunciada desde a Segunda Guerra Mundial. As condições objetivas estão mais presentes do que nunca para uma mudança de paradigma. O problema é a subjetividade.

O lento despertar
As últimas lutas coletivas foram travadas com o thatcherismo nos anos 80: a greve dos mineiros, a dos trabalhadores gráficos contra o grupo Murdoch, o protesto contra a “Poll Tax” [N.T. imposto regressivo criado pelo governo de Margaret Thatcher em 1989 na Escócia, e em 1990 no restante do Reino Unido]. Com a exceção das manifestações contra a guerra no Iraque e alguns protestos antiglobalização durante eventos internacionais em Londres, o Reino Unido vinha parecendo um lugar virtualmente apolítico. A coalizão pode mudar este panorama. No ano passado, os estudantes enfrentaram o governo com protestos que seguramente vão se repetir nos próximos 12 meses porque a triplicação do valor das matrículas entrará em vigor em 2012. Em março, cerca de 500 mil pessoas se manifestaram contra os cortes orçamentários. No momento, o dique é uma maioria silenciosa que aceita tudo como uma mistura de estoico conformismo, moderação até a morte (um paradoxo) e ceticismo.

O aumento do desemprego, as demissões massivas de centenas de milhares de funcionários públicos nos próximos anos, caso se cumpra o programa da coalizão, a perversa combinação de alta inflação e salários congelados, estão começando a abalar essa apatia pública. É preciso não esquecer que, se levamos em conta que cerca de 30% não se dignaram a votar em 2010, os conservadores só obtiveram 23% da massa total de eleitores. O atual vice-primeiro-ministro Nick Clegg disse com clareza antes das eleições do ano passado, quando nem lhe passava pela cabeça formar uma coalizão com os conservadores. “Imaginem que os conservadores vençam as eleições e digam em uma ou duas semanas que vamos elevar o VAT para 20%, vamos cortar o orçamento da educação, da polícia e dos salários públicos. Creio que, se não tomarmos cuidados, em dias teremos distúrbios como os que estão ocorrendo na Grécia”, disse Clegg.

É uma pena que o ingresso no governo tenha feito com que esquecesse essas palavras: no espelho poderia ter visto o que acabou ocorrendo em agosto.

Tradução: Katarina Peixoto




| 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9 | 10 |    Próxima | Última página

PERFIL

Artur Bruno é professor e deputado federal pelo PT-CE. Atualmente é primeiro vice-presidente da Comissão de Educação da Câmara dos Deputados. Já foi deputado estadual por quatro mandatos consecutivos e vereador de Fortaleza por outros dois. É casado com Natercia Rios e pai de Marina e Mayara.

Site oficial: www.arturbruno.com.br

ARQUIVO

Deputado Estadual Artur Bruno

1998 - 2017. Deputado Federal Artur Bruno - PT Ceará
Av. Desembargador Moreira, 2001 Salas 501/502, Dionísio Torres - Fortaleza/CE
Anexo 3 - Gabinete 467 - Brasília/DF

Telefones: (85) 3055-0968 | (61) 32155467
e-mail: arturbruno@arturbruno.com.br

Site produzido e atualizado pela assessoria de comunicação do mandato e TEIA DIGITAL