E a cabeça de Jobim rolou

|| Postado por Newton Albuquerque em 07-08-2011

O artigo de Eric Nepomuceno trata da queda de Jobim à frente do Ministério da Defesa, de sua arrogância prepotente e de sua distância dos direitos humanos.



Seguro de um poder que não lhe foi conferido por ninguém, confiando na blindagem que supostamente teria recebido de Lula, convencido de que ninguém se atreveria a afastá-lo, Nelson Jobim parecia disposto a ignorar qualquer limite e a não se preocupar com sua incontinência verbal. Dias atrás, à saída de um encontro com Dilma, disse que havia tido uma conversação normal e que sua permanência na pasta da Defesa era “um problema dela e não meu”. Alguém comentou, com ironia, que faltou ao imperial ministro dizer que havia decidido manter Dilma na presidência, ao menos no momento.

Dilma Rousseff se livrou na noite de quinta-feira de outro fardo pesado da herança que recebeu de Lula. O ministro da Defesa, Nelson Jobim, também chamado ministro da Arrogância e do Ataque, pela soberba com que distribuía críticas a colegas de gabinete e ao próprio governo foi decapitado. Em seu lugar, Dilma nomeou o embaixador Celso Amorim, quem foi ministro de Relações Exteriores durante os oito anos de Lula. É o terceiro nome imposto a Dilma por Lula que perde o emprego em sete meses e dois dias. Antes, caíram Antonio Palocci, da Casa Civil, e Alfredo Nascimento, do Ministério de Transportes, ambos atingidos por denúncias de corrupção. Contra Nelson Jobim não houve esse tipo de denúncia: ele caiu por excesso de torpeza.

Pouco antes das dez da manhã de quinta, Dilma Rousseff se reuniu com Ideli Salvatti, ministra de Relações Institucionais; Gleisi Hoffmann, chefe da Casa Civil; Helena Chagas, ministra da Comunicação Social, e Gilberto Carvalho, secretário geral da presidência e homem de total confiança de Lula. Visivelmente irritada, a presidenta selou a sorte de Jobim: ofereceu a ele a possibilidade de renunciar antes de ser demitido. Naquele momento, Jobim estava na Amazônia, na fronteira com a Colômbia. Seu regresso a Brasília estava previsto para o fim da noite, mas pouco depois das três da tarde recebeu uma chamada telefônica da presidência que sugeriu que voltasse imediatamente. Mais não disse porque não foi necessário.

Incômodo desde o primeiro momento, Jobim ficou até agora no governo por duas razões: a imposição de Lula e a dificuldade de encontrar alguém com o perfil adequado para o delicado posto de ministro da Defesa, ou seja, com livre trânsito nos quarteis, no Congresso e entre os grupos e movimentos sociais que reclamam a instalação de uma Comissão da Verdade para investigar os atos de terrorismo de Estado praticados ao longo da ditadura militar que governou o Brasil entre 1964 e 1985.

A verdade é que Jobim não correspondia exatamente a essas demandas. Trânsito livre nos quartéis, sim. No Congresso, mais ou menos. Junto a grupos e movimentos em defesa dos direitos humanos, quase nada. Desde que foi nomeado por Lula, em 2007, destacou-se por sua adesão sem limites aos setores castrenses, por sua reiterada resistência em admitir qualquer tipo de investigação sobre os crimes da ditadura e por fazer uso de uma prepotente truculência comparável com seu porte físico (Jobim mede mais de um metro e noventa e pesa mais de 110 quilos), na hora de tratara do delicado tema da memória e dos direitos humanos.

Não foi por isso, em todo caso, que sua destituição foi definida na quinta-feira. Seguro de um poder que não lhe foi conferido por ninguém, confiando na blindagem que supostamente teria recebido de Lula, convencido de que ninguém se atreveria a afastá-lo, Nelson Jobim parecia disposto a ignorar qualquer limite e a não se preocupar com sua incontinência verbal.

Há aproximadamente um mês e meio, durante uma cerimônia de celebração dos 80 anos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, de quem foi ministro da Justiça, Jobim proferiu palavras temerárias. E aproveitou para traçar um paralelo entre as duas situações, ou seja, entre o governo de FHC e o de Dilma: antes, disse Jobim, “os idiotas entravam na sala, ouviam o que se dizia e ficavam calados em algum canto”. “Agora, Fernando”, prosseguiu, “os idiotas perderam a vergonha, falam o tempo todo e se encontram em todas as partes”.

O óbvio mal estar decorrente dessa afirmação não havia sido desfeito quando, em uma entrevista televisiva, Jobim declarou que nas últimas eleições votou em José Serra, o adversário derrotado por Dilma. Mal estar renovado, tensão agudizada, o ministro foi chamado pela presidenta. À saída do encontro, disse que havia sido uma conversação normal e que sua permanência na pasta da Defesa era “um problema dela e não meu”. Alguém comentou, com ironia, que faltou ao imperial ministro dizer que havia decidido manter Dilma na presidência, ao menos no momento.

É conhecida a intransigência radical da presidenta em relação a críticas públicas de um ministro a outro. Na quinta soube-se de novas declarações de Jobim. Após mencionar as “torpezas do governo” relacionadas ao tema da imposição de sigilo eterno sobre documentos oficiais (que ele defende e a presidenta critica), fez comentários sobre duas de suas companheiras de governo. Classificou de “fraquinha” a ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, e disse que Gleisi Hoffmann, ministra da Casa Civil, “sequer conhece Brasília”. O mal estar, que já era grande, tornou-se imenso, assim como a irritação da presidenta.

Foi a gota d’água. Dilma, que nunca o quis como ministro, ordenou que voltasse imediatamente a Brasília. Jobim chegou pouco antes das 19h45min e foi voando para a sede do governo, onde entregou um envelope lacrado com sua carta de renúncia. Em menos de meia hora, estava fora do governo. Ninguém estranhou. No final, até Lula estava de acordo com sua demissão. Mas foi por sugestão sua que Dilma nomeou Celso Amorim. É o que tinham negociado para ocorrer dentro de duas semanas, mas Jobim decidiu testar forças e limites. Perdeu.

Tradução: Katarina Peixoto

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PERFIL

Artur Bruno é professor e deputado federal pelo PT-CE. Atualmente é primeiro vice-presidente da Comissão de Educação da Câmara dos Deputados. Já foi deputado estadual por quatro mandatos consecutivos e vereador de Fortaleza por outros dois. É casado com Natercia Rios e pai de Marina e Mayara.

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