Diário da Nova China (6): A China e os dilemas do socialismo periférico (1ª parte)

|| Postado por Newton Albuquerque em 04-08-2011

Na visão de Marx, o socialismo surgiria nos países do centro do capitalismo.



Com as forças produtivas mais desenvolvidas, com as classes sociais mais constituídas, a luta de classes apareceria de forma mais direta. O socialismo surgiria, dialeticamente, como a incorporação – do desenvolvimento das forças produtivas – e como sua negação – a socialização dos meios de produção, no lugar da sua propriedade privada, no capitalismo, haveria a socialização da produção e dos seus produtos, ao invés da sua apropriação privada.

O enredo concreto da história se deu de forma distinta. A primeira ruptura com a cadeia mundial de dominação imperialista acabou dando-se na periferia – na Rússia -, onde, segundo Lenin, as contradições se deram de maneira mais aguda, o poder – tzarista – era mais frágil, mais fácil de ser abatido. No entanto, segundo o mesmo Lenin, se era mais fácil tomar o poder na Rússia atrasada, era muito mais difícil construir o capitalismo – por essa mesma razão: o atraso das forças produtivas.

O próprio Lenin explicava o deslocamento das contradições mais agudas do centro para a periferia como um fenômeno produzido pela própria exploração colonial. Um império como o britânico, dividiria com a classe trabalhadora inglesa os ganhos na exploração colonial, diminuindo os conflitos dentro do pais e cooptando a setores da classe trabalhadora – no fenômeno que ele chamou de “aristocracia operária” -, aumentando, ao mesmo tempo, as contradições na periferia, superexplorada. Dessa forma se exportariam as contradições para a periferia, criando a contradição apontada por Lenin: mais fácil a conquista do poder, mais difícil a construção do socialismo.

Daí a expectativa que a revolução em um país europeu fosse resgatar o poder revolucionário na Rússia – além do mais, enfrentado a mais de 10 exércitos estrangeiros no seu próprio território, tentando derrubar o poder bolchevique. A Alemanha seria o elo mais frágil da cadeia imperialista – depois da Rússia -, derrotada na guerra, massacrada pelos acordos de pos-guerra, inviabilizada sua reconstrução pelas represálias tomadas contra ela. Ali as contradições se condensavam se maneira profunda. Alguma saída radical esperava a Alemanha.

Derrotado o movimento Espartaco, dirigido por Rosa Luxemburg e Karl Liebknecht, o campo ficava livre para a outra alternativa radical, desta vez de direita: o nacional socialismo, de Hitler. E a URSS ficava condenada ao isolamento. No pós-guerra, a Europa se reconstruía e mesmo os partidos social democratas não apoiavam a URSS, criticando sua via “totalitária” e deixando assim apenas para os em geral pouco representativos comunistas a solidariedade com a URSS.

No plano interno, a política inicial do governo bolchevique foi a do “comunismo de guerra”, isto é, enquanto enfrentava a contrarrevolução aberta e diretamente apoiada pelas potencias ocidentais, se fazia uma distribuição igualitária dos poucos bens que se dispunha. Passado esse momento, Lenin formulou uma nova política econômica, que visava estimular os camponeses – que realizavam seu sonho de acesso à terra, enquanto nas cidades se colocava em pratica um programa socialista, com a expropriação das grandes empresas pelo Estado.

Em seguida à morte de Lenin, a situação se deteriorou, com os camponeses deixando de vender ao Estado, que não tinha com que pagar-lhes, para vender no mercado negro interno, assim como também para as forças contrarrevolucionarias. A situação das cidades e do próprio governo foi se tornando cada vez mais difícil.

Com a morte de Lenin se desenvolveu a discussão entre Stalin e Trotsky sobre como seguir adiante com o novo regime, diante o isolamento da URSS. Sem resumir aqui com detalhes o grande debate, Trotsky considerava que era necessário colocar os principais esforços na extensão da revolução, sem a qual, considerava ele, seria asfixiada e derrotada ou desfigurada internamente pela burocracia. Stalin considerava que haveria que consolidar o processo internamente, dado que não havia perspectivas revolucionarias no horizonte, o que os obrigava a concentrar os principais esforços no foro interno de consolidação do poder bolchevique.

Stalin triunfou e teve que enfrentar o problema herdado de antagonismo crescente entre os interesses dos trabalhadores urbanos e os camponeses, que foi se agudizando cada vez mais. Até que Stalin, acusando aos camponeses de queres asfixias o processo revolucionário e de serem coniventes, de forma expressa ou implícita, com a contrarrevolução, promoveu, a partir de 1929, uma expropriação violenta e maciça dos camponeses, estatizando suas terras.

Essa foi a forma que assumiu na URSS a “acumulação socialista primitiva”, isto é, a forma do socialismo, na periferia pobre, dar o salto que lhe poderia possibilitar o desenvolvimento das forças produtivas que Marx supunha indispensável para a construção do socialismo. A via soviética permitiu ao regime uma industrialização compulsiva durante toda a década de 1930, que possibilitou que a URSS pudesse, heroicamente e contando com suas próprias forças, inclusive sua própria indústria bélica, derrotar o exército mais poderoso do mundo naquele momento, o alemão, permitindo não apenas sobreviver, com grandes sofrimentos, a URSS, como possibilitou a contra ofensiva que terminou com a derrubada do poder nazista, concretizado pelas tropas soviéticas.

Mas o preço interno não foi simples: por um lado, uma ferida que o regime soviético nunca superou com os camponeses e a economia agrícola, que até o final foi um dos pontos fracos da URSS, que teve que importar alimentos até sua desaparição, várias décadas depois. E, por outro lado, se deu o chamado processo de estalinização tanto do poder soviético – de que os Processos de Moscou foram a expressão mais sistemática e cruel, liquidando grande parte da liderança que tinha feito a revolução, sob a liderança de Lenin – como praticamente liquidando com a democracia interna nos partidos comunistas.

Ficava a resolver o problema do salto que poderia permitir a construção do socialismo em países pobres, da periferia capitalista. Que lições tiraria a China, que poucas décadas depois teve que enfrentar um problema similar. (continua)

Emir Sader
Extraído do Blog do Emir


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PERFIL

Artur Bruno é professor e deputado federal pelo PT-CE. Atualmente é primeiro vice-presidente da Comissão de Educação da Câmara dos Deputados. Já foi deputado estadual por quatro mandatos consecutivos e vereador de Fortaleza por outros dois. É casado com Natercia Rios e pai de Marina e Mayara.

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