A crônica, esta cearense

|| Postado por Newton Albuquerque em 29-07-2011

A crônica é um gênero brasileiro. Cada vez mais presente, não só nos jornais



Romancistas, poetas, contistas, jornalistas, e outros etas e istas, escrevem e publicam livros de crônicas. Delícia adormecer sobre páginas de Rubem Braga, cronista maior. No sentido clássico da palavra, é a narração de fatos segundo a ordem do tempo. A crônica brasileira busca uma definição. O poeta Affonso Romano de Sant’Anna disse que é jornalismo na primeira pessoa. Mas, complete-se, narrado em tom literário, usando as palavras com arte, e aquela sensibilidade particular para com as minúcias que permeiam a vida. Há romances sem cor literária, mas jornalística, como os de Capote, ou de John dos Passos; e há ensaios com atmosfera de romance, como os de Emerson, ou Borges. São a sensação provocada e o uso criativo da palavra que dão o tom literário.

Não posso dizer positivamente em que ano nasceu a crônica; mas há toda a probabilidade de crer que foi coletânea das primeiras duas vizinhas. Essas vizinhas, entre o jantar e a merenda, sentaram-se à porta, para debicar os sucessos do dia. Provavelmente começaram a lastimar-se do calor. Uma dizia que não pudera comer ao jantar, outra que tinha a camisa mais ensopada que as ervas que comera. Passar das ervas às plantações do morador fronteiro, e logo às tropelias amatórias do dito morador, e ao resto, era a coisa mais fácil, natural e possível do mundo. Eis a origem da crônica”, dizia nosso Machado de Assis. Brincando, explica que a crônica é a apropriação literária de um instinto humano: comentar a vida.

Nesse tempo havia esparsas publicações de textos costumbristas em jornais, como as do “carapuceiro”, em Recife, escritos pelo padre Lopes Gama, entre 1832 e 42. Falava ele de religião, luxo, curandeiros, mentirosos, o jogo, o vandalismo, a ornitomania, a fofice aristocrática, nosso gosto por macaquear... E nos jornais cariocas, os romances-folhetins, vindos nos navios franceses, publicados semanalmente em capítulos escritos por autores como Ponson Du Terrail, Alexandre Dumas ou Eugène Sue. Logo os brasileiros se animaram a publicar seus romances da mesma maneira, assim vieram à luz O guarani, de Alencar, ou Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado, entre tantos outros, hoje clássicos. Mas havia os folhetins, simplesmente, publicados aos domingos no prestigioso rodapé da primeira página do jornal, com a tarefa de comentar fatos da semana. Um desafio, abordar-se assuntos tão variados num mesmo texto. O folhetim era uma arte do jornalismo, pois de intenção informativa e opinativa, embora acolhesse autores dotados de maior altivez e delicadeza na escrita, aproximando-se do tão apreciado romance-folhetim.

 Em 1852 o jornalista Francisco Otaviano convidou José de Alencar, um jovem advogado que acabava de se formar, a escrever no Correio Mercantil. Otaviano lera, na faculdade de direito em São Paulo, um precioso ensaio de Alencar, A carnaúba, publicado na revista estudantil. E Alencar passou a escrever os famosos folhetins Ao correr da pena, coluna de estrondoso sucesso. Dava notícias do Paraguai, comentava sobre a arte de chorar, a missa do galo, o anseio da cidade, a diferença entre sorrir e rir, como se escreve sem tinta... Engendrado por esse precoce autor, o folhetim adquiriu a leveza, o sonho da ficção. Com estilo cuidadoso, Alencar incluía a poesia, o lirismo, a ironia, o devaneio, o eu, em meio a descrições da cidade ou da natureza, diálogos imaginários, reflexões sobre os costumes, perfis femininos como que de personagens... Mas logo se acabaram esses folhetins, quando Alencar foi chamado a dirigir o Diário do Rio de Janeiro. Ali, com toda a liberdade proporcionada pelo cargo, durante o ano de 1856 ele escreveu as Folhas soltas, crônica pura, com licença para o devaneio, num manso vagar sobre temas sem a determinação de comentários da atualidade. Podia soltar a imaginação, falar como em conversa entre amigos. São as primeiras crônicas do gênero brasileiro.

 Claro, em seguida Machado de Assis, que trabalhou na imprensa desde os seus 16 anos de idade, ampliou a dimensão da crônica, enveredando pela porta aberta por nosso cearense, ambos eram amigos e Machado muito admirava seu antecessor, e trilhando um percurso semelhante. Machado escreveu textos mais indagadores, reflexivos, com sua irreverência e galhofa, e aquela narrativa que causa a sensação de delírio, numa linguagem cada vez mais refinada e polida, a partir de sua mágica erudição. Eis a origem da crônica.

 Ana Miranda, extraído do sítio O POVO


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PERFIL

Artur Bruno é professor e deputado federal pelo PT-CE. Atualmente é primeiro vice-presidente da Comissão de Educação da Câmara dos Deputados. Já foi deputado estadual por quatro mandatos consecutivos e vereador de Fortaleza por outros dois. É casado com Natercia Rios e pai de Marina e Mayara.

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