Beleza tirana

|| Postado por Newton Albuquerque em 13-07-2011

“O sexo, dissociado da procriação, subsiste menos como princípio do prazer do que como princípio de diferenciação narcísica o mesmo vale para o desejo de riqueza.” Michel Houellebecq (Partículas Elementares)



Uma das coisas de que mais me orgulho foi ter influenciado a decisão da minha filha de jamais pôr cigarro e gota de álcool na boca (até o antisséptico bucal que ela usa não contém etanol). Não, não sou abstêmio e antitabagista, muito pelo contrário. Sua escolha, ela a tomou em razão do meu pigarro atroz e do meu ronco domingueiro de capotado, cacofonias que atrapalhavam seu soninho de princesa. Ah! Outras atitudes minhas também foram determinantes em sua sábia resolução de se formar em Medicina… e se especializar em Psiquiatria. (Conforta-me moralmente saber que estou desempenhando bem minha função paterna: dar exemplos. Aqueles que não devem ser seguidos, eu aviso e, com a linguagem do meu corpo desmazelado, demonstro o porquê.)
Como, nesta crônica, pretendo criticar a monomania, atualmente pandêmica, por saúde e beleza perfeitas, achei por bem – para ser honesto – introduzi-la com um breve autorretrato. Sim, não sou uma pessoa comedidamente ocupada com a própria saúde e a boa aparência para, com o moral dos justos, chutar o pau da barraca daqueles que, de forma desarrazoada, preocupam-se com tais motivos.
Ou não? Será que, pelo fato mesmo de ser exagerado ao ponto da displicência com o próprio corpo, não tenho legitimidade para falar, “de igual para igual”, com esses tarados por cooper e halteres? (Excluo do rol os profissionais, sejam atletas, atores, modelos e os que fazem do sexo um ofício, dado que seu ganha-pão depende da melhor forma física possível.) — Se, tanto em meu comportamento como no de muitos desses maníacos, há fortes traços de TOC (transtorno obsessivo-compulsivo), uma afecção mental, não posso sentenciar com propriedade: “você é minha imagem ‘invertida’ no espelho.”? Quanto às “carolas” de academia de ginástica que olham com desdém minha barriga grande – carinhosamente alcunhada por uma ex-namorada de “nossa” ilusão de óptica –, por que não devo dizer-lhes que são criaturas pasteurizadas, amargas pela carência de açúcar na dieta, deformadas pela supermalhação diária, embonecadas pelo silicone?
Essa preocupação “mórbida” com a saúde e a beleza, assim como o alcoolismo e o tabagismo, é uma doença mental degenerativa amplamente disseminada na sociedade de consumo. Três são as causas da pandemia: a) O merchandising midiático das grandes empresas, que, valendo-se de artifícios psicológicos, “erotiza” as mercadorias, associando até inseticidas com belas mulheres seminuas; b) O fato de que, nas economias afluentes, a riqueza material já não basta como meio de distinção social. Conforme constatou Michel Houellebecq, observando as pessoas em um shopping center, não dá para saber quem é filha de operário ou de capitalista. Em razão disso, o que melhor atende, hoje, ao impulso natural de competição narcísica é o sex appeal; c) A tecnocracia da previdência pública e privada, que, objetivando minimizar as despesas com doenças associadas a certas escolhas, desenvolve campanha agressiva contra o gordo e o fumante.
Criou-se, assim, um ideal de beleza inacessível à maioria das pessoas. Demais, a revolução new age, ao transformar o sexo em meio de diferenciação narcísica, trouxe muita miséria afetiva. Sim, enquanto um punhado de estátuas gregas faz amor com vários parceiros todos os dias, a massa dos quasímodos gasta a maior parte do tempo só treinando.
Enfim, essa luta obsessiva contra o envelhecimento e a morte (por juventude eterna) está fadada ao fracasso. A antecipação do fiasco e o desconforto das dietas geram frustração, que, por sua vez, é fonte de agressividade. Ora, tal agressividade pode voltar-se contra o próprio indivíduo, seja na forma de moléstias autoimunes ou como vontade inconsciente de morrer jovem — ou então se concentrar num bode expiatório: o “outro” que não compartilha seu modus vivendi.
Concluo esta crônica com um poema que escrevi para as mulheres possíveis, intitulado Pequenas Imperfeições:

Beijo tuas estrias,
Lambo-te as celulites,
Mordo teus culotes
E também os joanetes.
Não me teria apaixonado
Se não tivesses esse estrabismo leve
E os caninos saltados.
Ah, essas imperfeições
Que apimentam tua beleza…


Manuel Soares Bulcão Neto

do Blog Manuel Bulcão


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PERFIL

Artur Bruno é professor e deputado federal pelo PT-CE. Atualmente é primeiro vice-presidente da Comissão de Educação da Câmara dos Deputados. Já foi deputado estadual por quatro mandatos consecutivos e vereador de Fortaleza por outros dois. É casado com Natercia Rios e pai de Marina e Mayara.

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